24/05/2018

O modo peculiar como James Franco olha para sua sexualidade

James Franco (à esquerda) e Sean Penn em cena do filme Milk: A Voz da Igualdade (2008). Se tem uma coisa que James Franco gosta de fazer é personagens homossexuais. Imagem: Reprodução. 

     James Franco é um ator norte-americano muito talentoso, respeitado e premiado também. Construiu (e ainda está construindo) uma carreira de sucesso na dramaturgia. No meio de tantos papéis que James interpretou ao longo de sua carreira, há um fato que chama a atenção: a quantidade notória de personagens homossexuais que James já interpretou.

James Franco como Aron Ralston em 127 Horas (2010). O filme, baseado em uma história real, teve seis indicações  ao Oscar, três indicações ao Globo de Ouro e oito indicações ao BAFTA. Imagem: Reprodução.

     James Franco é um ator que nasceu na Califórnia (EUA) e que já chegou nos "enta" (ele completou 40 anos de vida em abril). James já interpretou dezenas de papéis na televisão e também nos cinemas, com destaque para a trilogia de filmes do Homem-Aranha, o filme biográfico James Dean (2001), onde Franco deu vida ao protagonista; O Amor não Tira Férias (2006), Ligeiramente Grávidos (2007), Comer, Rezar, Amar (2010) e 127 Horas (2010). O último conta a história  real de Aron Ralston, um alpinista que fica preso em uma pedra quando a mesma cai. O filme é dramático e mostra todo o sofrimento de Aron ao tentar sair daquela situação. O filme recebeu inúmeras indicações ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao BAFTA, apenas para citar alguns. James Franco também foi indicado em diversas premiações por conta deste filme. Aliás, James também tem inúmeros prêmios e indicações ao longo da carreira. Em 2011, ele foi indicado ao Oscar por sua atuação em 127 Horas. Além disso, o ator ganhou um Globo de Ouro em 2002 na categoria Melhor ator em minissérie ou filme por sua atuação como James Dean (1931 - 1955) e no ano de 2018, James ganhou outro Globo de Ouro na categoria Melhor ator em comédia ou musical por sua atuação em Artista do Desastre (2017). Além de bons papéis, boas atuações e inúmeros prêmios e indicações, há outro fato que chama a atenção no vasto currículo de James Franco: a quantidade de homossexuais que James já interpretou.

James Franco e Zachary Quinto se beijam em cena de Eu Sou Michael (2015). Imagem: Reprodução. 

     James Franco já atuou em diversos filmes onde interpretou um homossexual ou que abordam a questão LGBT. Milk: A Voz da Igualdade (2008), Uivo (2010), The Broken Tower (2011), Interior. Leather Bar (2013), Eu Sou Michael (2015) e King Cobra (2016) são os filmes de temática LGBT onde James atuou. Cada um dos filmes aborda a questão LGBT sob diferentes olhares e épocas. Milk: A Voz da Igualdade (2008), conta a história de Harvey Milk (Sean Penn) e Scott Smith (James Franco), um casal gay que está disposto a fazer algo em prol da comunidade LGBT. Já o filme Uivo (2010) conta a história de Allen Gisberg, homem que lança o livro de poesias mais vendido da história nos EUA. Porém, na época em que o livro foi lançado, o mesmo foi visto como obsceno pela sociedade. O filme The Broken Tower (2011) tem uma história semelhante. O longa conta a história de Hart Crane, um poeta que abre seu coração para a homossexualidade e passa a escrever poesias sobre o assunto. Porém, o escritor acaba sucumbindo por conta das pressões sociais e por causa da instabilidade de suas emoções. Já o Interior. Leather Bar (2013) reinventa as supostas cenas explícitas de sexo excluídas do filme Parceiros da Noite (1980). Em Eu Sou Michael (2015), a história é de um homossexual que deixa de se envolver com homens ao se converter ao cristianismo. E, por fim, King Cobra (2016) é sobre o real assassinato de Bryan Kocis, que lucrou milhões com a pornografia gay ao colocar jovens garotos em cena. Vale citar também a versão bem humorada que James e Seth Rogen fizeram do clipe Bound 2, de Kanye West, com direito a beijo na boca e tudo. O vídeo pode ser visto aqui. Tem também quando James Franco beijou na boca dois atores diferentes no programa Saturday Night Live. O registro deste momento pode ser visto aqui e também aqui. Além disso, James já postou em sua conta no Instagram uma foto onde aparece beijando outro homem.

James Franco e Seth Rogen em Bound 3. O clipe é marcado pelo bom humor e também pelo beijo protagonizado pelos atores. Imagem: Reprodução. 

     Em parte, o fato de James Franco ter tantos personagens homossexuais no currículo se explica pelo fato dele ser defensor da causa LGBT, conhecendo o que é a homofobia desde criança, já que sofria bullying por parte dos "machões" pelo fato de ser considerado "mariquinha" pelos mesmos. Entretanto, um outro fato, muito mais complexo, explica o porque de James Franco ter interpretado tantos personagens gays ao longo de sua longa trajetória na dramaturgia. Volta e meia aparece na mídia notícias questionando a sexualidade de Franco. Isso porque James Franco tem 40 anos de vida, não é feio, é um ator famoso e reconhecido, já foi indicado a muitos prêmios e ganhou alguns e também é rico. Estes são os supostos requisitos para que um homem encontre e se case com uma mulher. Porém, James tem tudo isso e não é casado e nem tem filhos. Daí, os questionamentos sobre a sexualidade do ator em questão. James Franco diz que é gay, mas até a hora da penetração. Ou seja: James é homossexual na vida, mas na hora do sexo, ele é heterossexual, uma vez que prefere ter relações com mulheres. O ator já disse também que é gay na arte e hétero na vida, mas ressaltando que a sua homossexualidade no cotidiano vai somente até a cama. Daí em diante, quem assume o comando é a versão hétero de James. O premiado ator disse também que classificá-lo como homossexual ou heterossexual depende do modo como a pessoa entende o que é ser gay e o que é ser hétero. Se a definição que a pessoa  tem de ser hétero ou homossexual é com quem se vai para cama, logo James é hétero, já que ele só transa com mulheres. Entretanto, segundo James, nos anos 1920 e 1930, a classificação de gay ou hétero era feita com base no comportamento da pessoa e não com quem se transava. O ator disse também que marinheiros transavam com outros homens o tempo todo, mas eles tinham um comportamento viril e por conta disso não eram considerados gays. Lembrando que James Franco disse certa feita que um dos arrependimentos que leva consigo é o fato de não ser homossexual.
     Como já foi dito no parágrafo acima, a mídia com frequência especula acerca da sexualidade de James Franco e o ator disse que isso funciona como uma espécie de cortina, ajudando a manter no animato os eventuais casos amorosos que venha ter. James já teve várias namoradas ao longo da vida, com destaque para Marla Sokoloff, com quem atuou no filme Correndo Atrás (2000). Os atores permaneceram juntos de 1999 a 2004. Além disso, James já se envolveu em algumas polêmicas por conta de seus casos. Neste ano, voltou à tona uma história onde James flerta com uma adolescente de 17 anos, chegando a convidá-la para ir a um hotel. A polêmica foi grande e James se manifestou sobre o caso. O ator falou em sua conta no Twitter e também em programas de televisão que não sabia que a jovem flertada era uma adolescente. Isso aconteceu em 2014. Tal polêmica voltou à tona em um contexto onde James Franco foi acusado de assediar sexualmente pelo menos cinco mulheres. A polêmica foi tão grande que o ator foi excluído digitalmente da capa da revista Vanity Fair  e ignorado em eventos como o Oscar. James nega as acusações e afirma que não há clareza nas mesmas. É importante lembrar que, embora seja contraditório, é perfeitamente possível um homem ser homossexual e também machista. Denúncias de machismo aparecem com frequência na comunidade LGBT. A existência do homossexual por si só coloca em jogo a regra heteronormativa da sociedade, mas isso não significa necessariamente que o homossexual levanta a bandeira do feminismo. Isso porque o homem gay, embora sinta atração por outros homens, foi criado em uma sociedade machista e vive usufruindo de seus privilégios de macho. Se isso não for desconstruído, a tendência é o gay ser machista, algo muito mais comum do que se imagina.

Conclusão

     Classificar James Franco como hétero ou homossexual vai depender do modo como você entende a homossexualidade e a heterossexualidade. James tem um olhar próprio acerca de sua sexualidade e convive bem com isso. Para quem não entende, fica difícil de entender, mas para o ator tudo funciona na mais perfeita  normalidade. Por uma questão de moralismo e também por falta de informação, tudo foi simplificado entre a homossexualidade e a heterossexualidade. Porém, entre o preto e o branco há uma gama infinita de tons. 

22/05/2018

A problemática representatividade negra no casamento real

Príncipe Harry e Megan Markle (agora duque e duquesa de Sussex) desfilam em carro aberto pelas ruas de Windsor, Inglaterra, após cerimônia de casamento. Imagem: Gareth Fuller/Pool/Reuters. 

     No dia 19 de maio de 2018, o príncipe Harry e a ex-atriz Megan Markle subiram ao altar, se tornando o duque e a duquesa de Sussex respectivamente. Desde que Harry e Megan começaram a se relacionar e o fato se tornou público, a relação em questão deu (e ainda está dando) muito o que falar e isso se deve em parte ao fato de Megan ser negra. No local onde o casamento foi realizado havia uma grande quantidade de negros, levando negros e também integrantes de movimentos em prol da igualdade racial a comemorarem tal fato, dizendo que a população negra estava chegando a lugares que antes não chegavam. Entretanto, uma análise mais profunda revela que nem tudo é motivo para festa.

Wallis Simpson (1896 - 1986) ao lado de Eduardo VIII do Reino Unido (1894 - 1972). Eduardo VIII abdicou do trono britânico para se casar com Wallis porque na época a Igreja Anglicana não permitia o casamento com pessoas divorciadas. Imagem: Reprodução.

     Desde que Harry e Megan assumiram publicamente o relacionamento, o fato teve grande repercussão por conta do perfil de Megan, uma mulher negra, divorciada, três anos mais velha que Harry, independente e defensora dos direitos dos desfavorecidos. Este perfil vai contra aquele que ainda é o perfil de uma princesa: uma mulher submissa e independente. Em outras épocas, Megan não poderia se casar com Harry porque a Igreja Anglicana, cujo chefe é o monarca, não permitia o casamento onde um dos cônjuges é divorciado. Eduardo VIII do Reino Unido (1894 - 1972) teve que renunciar ao trono inglês para se casar com Wallis Simpson (1896 - 1986), uma mulher que havia se divorciado duas vezes até conhecer Eduardo VIII. Por conta disso, Jorge VI do Reino Unido (1895 - 1952), que até então vivia a sombra do irmão e cujas possibilidades de chegar ao trono eram remotas, se tornou rei. Assim, a atual rainha da Inglaterra Elizabeth II e a irmã, a princesa Margareth (1930 - 2002) subiram na linha de sucessão ao trono britânico. Aliás, a princesa Margareth foi impedida de casar com Peter Townsend (1914 - 1995) pelo fato dele ser divorciado. Ela poderia até se casar com ele, mas perderia os seus privilégios de princesa, bem como o seu lugar na linha de sucessão ao trono, inclusive seus descendentes. Como não queria perder seus privilégios, a princesa Margareth e Peter não se casaram. Um tempo depois, a irmã mais nova da rainha da Inglaterra se casou com Antony Armstrong-Jones (1930 - 2017) em maio de 1960. Entretanto, já tem algumas décadas que o divórcio é permitido pela Igreja Anglicana. A própria princesa Margareth se divorciou de Antony em 1978. Além disso, todos os filhos da rainha Elizabeth II, com exceção do príncipe Edward, são divorciados. 

O coral gospel The Kingdom Choir, composto por negros, emocionou a todos ao cantar Stand By Me, de Ben E. King (1938 - 2015). Imagem: Reprodução/Twitter

     Entretanto, o que chamou a atenção foi o fato de Megan ser negra. A cor da pele da agora Duquesa de Sussex rendeu muitas notícias, artigos, debates acalorados dentro de movimentos negros mundo afora e também ofensas raciais. As ofensas atingiram um grau tão alto que o príncipe Harry defendeu a amada publicamente. No tão esperado dia da cerimônia, muitos fatos chamaram a atenção e também algumas tradições foram quebradas. Porém, o que deu o que falar mesmo foi a grande quantidade de pessoas negras presentes na Capela de São Jorge, que fica no Castelo de Windsor, onde o enlace matrimonial foi realizado. Foi a primeira vez, até onde se sabe, que um número tão grande de negros marcaram presença no Castelo de Windsor. O coral gospel composto por negros The Kingdom Choir marcou presença e emocionou a todos quando se apresentaram na cerimônia. Destaque para Nathan Mcharo, um corista negro adolescente que integrou o coral que cantou no casamento real. E destaque também para o violoncelista negro de 19 anos Sheku Kanneh-Mason que tocou enquanto o príncipe Harry e Megan assinavam os documentos. Tem também o reverendo negro Michael Curry, que citou Martin Luther King (1929 - 1968) em seu sermão. Além disso, o reverendo defende o casamento gay e é um crítico ferrenho de Donald Trump, o atual presidente dos EUA. Não poderia deixar de citar Doria Ragland, mãe de Megan e que também é negra, cuja emoção durante a cerimônia era visível. E isso sem contar com as personalidades negras de relevância no cenário internacional, como por exemplo Oprah Winfrey, a rainha da televisão mundial e a tenista internacionalmente reconhecida Serena Williams. Por conta da grande quantidade de negros, muitos se sentiram representados e comemoraram porque havia negros em lugares onde até então não haviam. Porém, estava comemoração deve ser revista. 
     Harry e Megan podem se amar verdadeiramente, mas o casamento de ambos serviu também para aumentar a popularidade da coroa inglesa e adaptar a imagem da mesma aos novos tempos. Foi a união do útil ao agradável. A monarquia do Reino Unido existe desde 1066 e precisa a todo instante se atualizar aos novos tempos para se manter no poder. A liberação do casamento para os divorciados é um exemplo disso, bem como a exibição pela televisão da coroação de Elizabeth II e de todos os casamentos reais, cujo primeiro a ser televisionado foi o da princesa Margareth. A princesa Diana (1961 - 1997) deixou sua marca na monarquia do Reino Unido, aumentando a popularidade da mesma, quebrando tradições e trazendo inovações para a mesma. Da mesma forma, Megan Markle acabou de entrar para a família real inglesa e já entrou para a História ao deixar sua marca na coroa inglesa. Porém, falar de representatividade negra nesse contexto é algo problemático. Representatividade seria fazer parte da supremacia branca? Sim, pois a monarquia do Reino Unido fez a Revolução Industrial tendo o corpo negro como combustível. Além disso, tal monarquia foi uma das que mais se aproveitou da escravidão e da colonização. Cada centímetro do Palácio de Windsor, bem como a louça usada durante as refeições, os bancos e as roupas têm o sangue negro. Se isso não for supremacia branca, eu não sei o que é. O que houve não é representatividade e muito menos integração. Representatividade negra é quando o negro pode livremente viver sem ter de esconder suas características e origens. Além disso, não pode haver integração sem reintegração e se a reintegração ocorresse, os membros da família real em questão não teriam nem o que vestir, uma vez que a riqueza obtida é fruto da exploração sistemática do continente africano e do corpo negro. É como se ladrões e assassinos invadissem a sua casa, roubassem seus filhos, estuprassem sua esposa, te sequestrassem, te escravizassem, matassem suas crianças e torturassem os mais velhos. E depois de algumas gerações esse ladrão volte rico (graças a tudo o que ele roubou) e se casa com uma de suas descendentes. Foi isso o que a coroa inglesa fez na África e o Harry representa o ladrão que após gerações retorna rico e se casa com uma descendente dos explorados, que no caso é a Megan. O príncipe Harry pode não ter participação na escravidão e exploração do continente africano, mas sem dúvida a sua riqueza e os seus privilégios foram construídos em cima dos corpos negros. 

Casamento da princesa Ruth Komuntale do Toro Kingdom, reino tradicional que fica nas fronteiras de Uganda, na África, em 2012. Imagem: Reprodução. 

     Provavelmente, os negros que se sentiram representados pela presença de Megan em uma família real desconhecem o fato de que na África há muitos países que vivem em uma monarquia. Lesoto, Marrocos, Suazilândia, Zululândia, Ashanti (Gana), Buganda (Uganda), Toro Kingdom (Uganda), Kano (Nigéria) e Godenu (Gana) são regiões da África, continente cuja população é majoritariamente negra, onde há monarquias. Entretanto, pouco ou nada se falam sobre as mesmas. Em 2012, a princesa Ruth Komuntale do Toro Kingdom, reino tradicional que fica na região fronteiriça de Uganda, se casou. Não foi um casamento televisionado para o mundo inteiro, os programas de celebridades não falaram sobre a cerimônia, não houve hashtags no Twitter (se teve, com certeza, as mesmas não estiveram em primeiro lugar em todo o mundo) e não houve negros na televisão falando de representatividade. Em 2016, um terreiro situado na Baixada Fluminense, mais precisamente em Santa Cruz da Serra, Caxias, no estado do Rio de Janeiro, recebeu a princesa nigeriana Arewa Folashade Adeyemi, da família real de Oyo. O objetivo da princesa era conhecer uma casa de santo histórica que está há mais de 50 anos na cidade. A repercussão do fato não foi grande. Soube pelas redes sociais que vários membros da família real iorubana estão no Brasil ou a caminho. Está entre eles Iya Adedoyin Olosun, princesa de Osogbo, sacerdotiza do culto de Osun. No próximo mês, estará no país Òóni de Ilé-Ifè e a Bahia será decretada por ele a capital iorubana das Américas. Na comitiva, estarão presentes também Wande Abimbola e Wole Soyinka. O primeiro é um acadêmico nigeriano que já atuou como senador na Nigéria e o segundo é um escritor também nigeriano que ganhou o Nobel de Literatura em 1986. Não se vê empoderados se alvoroçando pela vinda da família real em questão ao Brasil. A pessoa enxerga representatividade em uma mulher negra que se casou com um membro da família real que mais lucrou com o tráfico de escravos (e que até hoje explora as populações africanas), mas não vê representatividade em muitas dinastias da África. 

Conclusão

     O casamento de Harry e Megan é uma estratégia da monarquia do Reino Unido para aumentar a popularidade e se manter no poder. Todo o luxo e os privilégios desta monarquia foram feitos em cima da exploração da população negra, bem como da exploração das riquezas da África. Representatividade negra não é quando um negro faz parte da supremacia branca e incorpora a estrutura racial. Representatividade negra é quando o negro vive livremente sem ter vergonha de sua origens, suas características e livre do racismo, uma das estruturas do mundo ocidental onde o homem branco é colocado no centro de tudo e a população negra é posta à margem. 

08/05/2018

Rio de Janeiro - a eterna capital do Brasil

Cristo Redentor e o Pão de Açúcar ao fundo. Ambos são os pontos turísticos mais conhecidos da cidade do Rio de Janeiro. Imagem: Reprodução. 

     A cidade do Rio de Janeiro é talvez a cidade mais conhecida do Brasil e também uma das mais conhecidas do mundo. A cidade do Rio de Janeiro pode não ser a mais a cidade centro da política brasileira e nem a cidade mais rica economicamente falando, mas sem dúvidas o Rio de Janeiro ainda é a capital cultural do Brasil.
      Para entender a posição de representatividade que o Rio de Janeiro tem no Brasil e até mesmo no mundo, é preciso dar uma olhada na História. A primeira capital do Brasil foi Salvador (BA). A razão da escolha de uma cidade da região nordeste do país para ser a capital se deve ao fato de no momento a plantação e a exportação da cana de açúcar (que deu muito certo no nordeste) ser algo muito lucrativo. Entretanto, a exportação da cana de açúcar começou a entrar em queda por conta da concorrência com a cana de açúcar plantada no Caribe e também no continente asiático. Foi neste momento que descobriram na região que hoje é o estado de Minas Gerais ouro e pedras preciosas. O ouro e os demais metais preciosos eram extraídos nesta região e, antes de irem para o mercado externo, tinham por último destino a cidade do Rio de Janeiro. Por esta razão, a capital deixa de ser Salvador (BA) e passa a ser a cidade do Rio de Janeiro. Assim como Salvador, a cidade do Rio de Janeiro passou a ser a capital por razões econômicas. Isso foi em 1763.

Quadro ilustrando a vinda da Família Real portuguesa e da corte para o Brasil. Isso foi no ano de 1808. A autoria da obra é desconhecida. Imagem: Reprodução. 

      Entretanto, o papel da cidade do Rio de Janeiro no país ganhou outros patamares após a vinda da Família Real portuguesa e a corte para o Brasil em 1808. Isso aconteceu porque Napoleão Bonaparte (1796 - 1821) estava invadindo vários países da Europa e queria fazer o mesmo com Portugal, caso o país não parasse de ter relações comerciais com a Inglaterra, país a quem Napoleão impôs o chamado Bloqueio Continental. Portugal não queria findar suas relações com a Inglaterra (de quem era dependente economicamente), mas também não queria ser invadido por Napoleão. Desta forma, a saída encontrada foi fugir para o Brasil. E assim, sob a escolta naval da marinha inglesa, incontáveis navios trazendo a família real, a corte e muitos documentos e livros chegaram ao Brasil em 1808. Com isso, o Brasil foi designado oficialmente como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815) e houve também a Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808), dando ao Brasil a possibilidade de negociar com outros países, uma vez que com o Pacto Colonial o Brasil só podia exportar produtos primários (matéria-prima) para a metrópole. Além disso, por conta deste mesmo pacto, o Brasil não podia ter indústrias. Entretanto, isso mudou, e a independência, que viria em 1822, era só uma questão de tempo.
      Com a vinda da Família Real portuguesa e sua corte para a cidade do Rio de Janeiro, a mesma passou a  ser o centro do país. Uma vez que a realeza portuguesa estava na cidade, todos queriam estar na mesma. Além disso, a moda europeia, que já era muito copiada na América Portuguesa, passou a ser ainda mais copiada depois que os reis de Portugal vieram para o Brasil. Assim, tudo o que a realeza vestia e fazia, era instantaneamente copiado pelos brasileiros. Vale lembrar também que com a chegada destas pessoas ilustres, houve uma tentativa de modernizar o Brasil. Assim, criaram a Biblioteca Real (1810), o Jardim Botânico (1811), o Museu Real (1818) e a fundação do primeiro banco do Brasil (1808). Desta forma, o Rio de Janeiro era a capital política, econômica e também cultural do Brasil. Este status, obtido após a vinda da nobreza portuguesa ao Brasil, permaneceu ao longo de todo o período imperial do país (1822 - 1889) e até mesmo depois do golpe militar republicano, em 1889. Isso porque, embora o período imperial tivesse chegado ao fim, o Rio de Janeiro continuou sendo a capital do Brasil durante parte do período republicano brasileiro. Só que agora a residência do governante não era mais a Quinta da Boa Vista, situada no bairro de São Cristóvão, mas sim o Palácio do Catete, localizado no bairro do Flamengo. Atualmente, este palácio é o Museu da República, inaugurado em 1960 pelo então Presidente da República Juscelino Kubitschek (1902 -1976) depois da inauguração de Brasília. O Palácio do Catete foi palco de diversos eventos históricos, como por exemplo: a morte do então presidente Afonso Pena em 1909, a assinatura da declaração de guerra contra a Alemanha em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial (1914 -1918); a visita e a hospedagem do cardeal Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII (1876 - 1958), em 1934; a declaração de guerra contra o Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), em 1942 e o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, com um tiro no coração.

Fachada do Palácio do Catete, atual e popularmente conhecido como Museu da República. Imagem: Reprodução. 

      O Rio de Janeiro foi a capital do Brasil por quase dois séculos, até que em 1960 a cidade perde o posto de capital para Brasília. Este fato ocorreu durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956 - 1961). A ideia de mudar a capital do país era um projeto antigo e JK apenas tirou o mesmo do papel. A ideia de construir uma nova capital no centro do país  estava prevista nas constituições de 1891, 1934 e 1946. Juscelino só colocou em prática este projeto antigo. Uma das razões para a mudança de capital para o centro-oeste do país era o fato de quererem povoar esta região e também torná-la atrativa do ponto de vista econômico, uma vez que as regiões mais povoadas e que também concentravam a economia eram a região sudeste, em especial Rio de Janeiro e São Paulo.
     Mesmo não sendo mais a capital política do país, o Rio de Janeiro é a capital cultural do país, é a cidade modelo para as demais. Uma das provas deste fato é que as manifestações que entraram para a história do Brasil ocorreram em solo carioca. Foi no Rio de Janeiro que uma multidão de pessoas foram às ruas chorar  a morte do então presidente Vargas, em 1954. Fato semelhante ocorreria quase 40 anos depois, quando o piloto Ayrton Senna morreu em um acidente automobilístico, em 1994. Foi na cidade maravilhosa que João Goulart (1918 - 1976) fez um discurso em um comício realizado na Central do Brasil, estação de trens da cidade, semanas antes do golpe civil-militar de 1964. Foi também na cidade do Rio de Janeiro que houve a manifestação que a História denominou de Passeata dos Cem Mil, uma passeada que em 1968 reuniu milhares pessoas que queriam o fim da ditadura. O Rio de Janeiro também foi palco de uma das maiores manifestações que pediam eleições diretas para presidente, em 1984, um ano antes do fim da ditadura. O Rio de Janeiro costuma ser o palco das maiores manifestações políticas do país. A cidade sempre tem um grande número de adesão quando o assunto é manifestação. As mais recentes ocorreram durante as chamadas Jornadas de Junho de 2013. Aproximadamente cem mil pessoas lotaram as ruas do centro da cidade expondo as suas insatisfações com relação à política. Por volta de três dias depois, cerca de um milhão de pessoas fecharam a Avenida Presidente Vargas (a rua mais importante do centro da cidade do Rio) fazendo a mesma coisa. A morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018, teve repercussão internacional. Houve manifestações em várias cidades do Brasil. Porém, sem dúvida alguma, as maiores manifestações ocorreram na cidade do Rio de Janeiro. Houve uma manifestação no dia 15 de março de 2018 (mesmo dia em que Marielle e Anderson foram enterrados) que reuniu milhares de pessoas no centro da cidade do Rio de Janeiro. Tal manifestação reuniu professores, intelectuais, universitários, artistas, políticos, militantes de movimentos negros, feministas, LGBTs e profissionais de diversas áreas. Por conta de tudo isso, muitas vezes a história do Brasil é contada a partir da cidade do Rio de Janeiro.

Milhares de pessoas se reúnem na Cinelândia pedindo justiça pelas mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Reparem no imponente Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O mesmo é um dos mais importantes teatros brasileiros. Imagem: Reprodução. 

     Não é somente as manifestações políticas que fazem da cidade do Rio uma "cidade-espelho". As paisagens da cidade atraem turistas de outras regiões do Brasil e também de outros países. A praia de Copacabana, palco de shows de estrelas  nacionais e internacionais, manifestações e também onde ocorre a tradicional queima de fogos de Ano Novo, atrai muitos turistas. Eles se sentem atraídos pelo fato da região ter sido palco de fatos importantes da História, pela beleza da praia e também pelo famoso calcadão de listras pretas e brancas, o chamado Calçadão de Copacabana. Isso sem contar o lendário Copacabana Palace, hotel tradicional da cidade que atrai muitos turistas e que também costuma acolher astros nacionais e internacionais que se apresentam na cidade. Tem também o Bondinho do Pão de Açúcar, teleférico localizado no bairro da Urca e que liga a Praia Vermelha ao Morro da Urca e ao Morro do Pão de Açúcar. Destaque também para o Cristo Redentor, estátua que retrata Jesus Cristo de braços abertos e que está localizada no topo do Morro do Corcovado, no Parque Nacional da Tijuca, de onde se pode ver parte considerável da cidade do Rio de Janeiro. Vale citar também a Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo. Muitas cidades do mundo se destacam por suas estátuas e monumentos belos. Entretanto, o diferencial da cidade do Rio de Janeiro é que as paisagens são naturais.

PROJAC, local onde são gravadas as novelas da TV Globo, bem como série, seriado e programas de TV. O PROJAC fica em Jacarepaguá, Zona Oeste da cidade do Rio e tem 1,65 milhão de metros quadrados, sendo que um milhão é de vegetação nativa, uma vez que o estúdio está encravado na Mata Atlântica. Inaugurado em 1995, o PROJAC (que também é conhecido como Central Globo de Produções ou Fábrica de Sonhos) é o maior centro de produção da América Latina. Imagem: Central Globo de Produções (CGP)/TV Globo.  

      Outro fato que faz com que a cidade do Rio seja vista como "cidade-espelho" para o restante do país está no fato de a TV Globo, maior e principal emissora de TV do país e também uma das maiores do mundo, ter a maioria de suas novelas ambientadas na cidade do Rio de Janeiro e ter o seu elenco composto majoritariamente por cariocas. Aqueles que não têm o sotaque carioca, acabam aprendendo a falar como um. As novelas da TV Globo são exibidas em território nacional e costumam retratar a cidade do Rio. Vale destacar que a maioria das novelas globais ocorrem no eixo Rio-SP, mas tem produções que procuram fugir desse eixo. A Força do Querer (2017), que tinha parte do elenco oriundo de Manaus (AM); O Outro Lado do Paraíso (2017), cuja maior parte dos acontecimentos ocorrem no estado do Tocantins e a série Onde Nascem os Fortes (2018), que tem por cenário a cidade de Recife (PE) e o sertão paraibano são alguns exemplos.

Conclusão

      Embora tenha deixado de ser a capital do Brasil há mais de 50 anos, a cidade do Rio de Janeiro não perdeu o seu status de capital cultural do país, a "cidade-espelho" para as demais. Este posto é um tanto quanto problemático porque muitas vezes a ideia que se tem é de que o Brasil se resume ao Rio de Janeiro, o que não é verdade. Isso porque este país de dimensões continentais abriga belas paisagens desde o Oiapoque ao Chuí. Além disso, a cidade do Rio não é a capital econômica do país, já que, economicamente falando, a cidade mais rica do Brasil é São Paulo (SP). Porém, mesmo sendo a maior cidade do Brasil, a cidade de São Paulo ainda não conquistou o posto de capital cultural do país, que há mais de dois séculos pertence a cidade do Rio de Janeiro. 

26/04/2018

Entrevista com Ulysses Martins

Ulysses Martin. Imagem: Reprodução/Facebook
     O entrevistado do mês de abril do blog A Hora é Ulysses Martins. Ele é morador do Complexo da Maré desde que nasceu, exerce a profissão de eletricista e faz graduação em Serviço Social. Esta entrevista foi dada gentilmente por Ulysses em sua residência, um lugar tranquilo, acolhedor e com muitos e muitos livros. Nesta entrevista bastante enriquecedora, Ulysses falou de política, religião, Teologia da Libertação, as personalidades deste movimento que o influenciam, fez uma breve análise das Assembleias de Deus, disse o papel que acredita que a igreja deve exercer em uma periferia e também falou do assassinato da vereadora Marielle Franco, executada no mês de março e que, assim como Ulysses, era nascida e criada no Complexo da Maré. A entrevista pode ser conferida abaixo:


1 - A Hora: Costumo iniciar uma  entrevista perguntando sobre a infância do entrevistado. Você pode falar como foi a sua?

Ulysses Martins: Minha infância foi normal, tranquila. Tive problemas devido a separação dos meus pais, quando tinha sete anos de idade. Nesse período eu sofri um pouco, mas superei. Sou nascido e criado no Complexo da Maré. Sempre morei nesta casa onde estou dando esta entrevista para você neste momento. 

2 - AH: Quando aderiu a religião cristã?

UM: Na verdade, a minha mãe e a minha avó sempre foram evangélicas. Então, eu cresci ouvindo os cânticos religiosos e frequentando a igreja. E quando eu tinha 13 anos de idade, eu decidi seguir esta religião. 

3 - AH: Você frequentou a igreja Assembleia de Deus por muitos anos. Na sua opinião, quais os pontos positivos e negativos desta denominação?

UM: Bem, os pontos positivos... são as contradições, não é? Eu creio que a doutrina bem fechada me protegeu de tomar um caminho precipitado, ao mesmo tempo que esta doutrina muito fechada te priva de uma liberdade e de conhecer um pouco a vida. Há está contradição. Ao mesmo tempo que aquilo me protegeu de um caminho ruim ou precipitado na minha vida sentimental, me livrando até mesmo de uma paternidade precoce, como aconteceu com muitos amigos meus. E a Igreja sempre com aquele discurso de casar e de sexo só depois do casamento... Então, eu creio que isso me livrou da possibilidade de ter sido pai muito cedo. 

4 - AH: Você é um protestante que tem certa afinidade com o catolicismo. Isso não seria contraditório?

UM: Para algumas denominações, como as pentecostais, isso é uma coisa contraditória. Mas na origem protestante já tem um lado mais ecumênico, mas nem foi pela igreja protestante que essa afinidade começou. Quando comecei a frequentar a Igreja Presbiteriana, eu ainda tinha esse receio, mas esse sempre foi um caminho que eu fui tomando. Fui conhecendo as pessoas, acredito que me tornando mais humano, eu comecei a pensar: "Como é que pode uma pessoa estar ali em um ambiente daquele e não ser salva?" ou ir para o inferno, como muitas vezes ouvi falar. Eu acredito que Deus não tem esse monopólio de alguma religião. Então, eu acredito que a religião é uma manifestação cultural e cada um tem um certo entendimento daquela palavra, como é dito. Desta forma, eu comecei a me aproximar porque a doutrina católica tem um acervo muito grande de espiritualidade. Infelizmente, com a Reforma Protestante, para poder se diferenciar, muita coisa se perdeu. Então, dentro da Igreja Católica você tem um referencial de espiritualidade muito grande. 

5 - AH: Ulysses, a sua visão político-ideológica é influenciada pela Teologia da Libertação. Quando conheceu tal teologia e quais as figuras desta corrente que lhe influenciam?

UM: Desde pequeno eu sempre gostei de política. Por volta de 2014, quando começou a campanha do Marcelo Freixo (PSOL) para deputado estadual, eu fui conhecendo muita gente. Conheci pastores, conheci algumas lideranças, fui ouvindo falar em alguns líderes, como por exemplo Leonardo Boff e Frei Beto, que sempre apoiaram a esquerda. Dali, fui conhecendo, fui pesquisando e procurando saber. E foi assim que eu conheci a Teologia da Libertação. Eu conheci o Frei Carlos Mesters e Dom Pedro Casaldáliga. Conheci também algumas pessoas estrangeiras que são adeptas deste movimento, como o padre e ex-guerrilheiro sandinista Ernesto Cardenal da Nicarágua e o sacerdote peruano Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação.  

6 - AH: No Complexo da Maré tem ocorrido nos últimos anos uma  verdadeira proliferação de igrejas evangélicas. Isso é bom ou ruim?

UM: Eu acredito que a religião tem os dois lados. Ela pode alienar, como ela pode emancipar. A religião também serve como um antídoto para aplacar um pouco o sofrimento das pessoas. E isso é um pouco perigoso porque tira elas da luta, ela fica esperando um Deus que vai abençoá-la, que se ela trilhar um caminho, ela vai ser próspera de algum jeito e isso acaba sendo uma ferramenta das classes dominantes para que as pessoas estejam ali, naquele mundinho esperando algo acontecer e as coisas não são assim. Mas eu também não posso negar que a  religião ajudou muita gente. Muitas pessoas saíram do tráfico, da criminalidade e até mesmo de vícios por causa da religião. Então, eu acredito que a religião tem essa contradição. Este fenômeno é bom e também é ruim. Há estes dois lados. 

7 - AH: Esta pergunta está relacionada a anterior. Na sua opinião, qual o papel que a Igreja deve exercer em uma favela?

UM: Eu acho que a Igreja tem que tratar dos problemas espirituais da pessoa, trazendo consolo porque, como eu tenho fé, não acredito que só os bens materiais ou uma vida próspera vai ajudar as pessoas em tudo. As pessoas têm seus problemas, seus traumas e seus medos. Ainda mais que moramos em um lugar com tantos problemas, como por exemplo a violência. Mas acho que o papel é sempre tentar emancipar as pessoas. Cristo e os profetas por exemplo denunciavam as mazelas sociais, as desigualdades e também mostravam como lutar. Um exemplo muito claro disso é uma passagem do Velho Testamento, do livro de Daniel, se eu não me engano. Saiu um decreto que dizia que as pessoas não podiam exercer sua religião ali. E haviam três pessoas que ali que exerceram e por isso foram condenadas. Ou seja: o evangélico tem que mostrar a pessoa que ela tem que lutar pelo que ela acha que é justo, pelo que ela acha que é certo e não se submeter a um sistema porque infelizmente a neutralidade tende sempre a cair para o lado de quem está dominando.

8 - AH: As igrejas orgânicas são uma alternativa ao cristianismo institucional?

UM: Eu creio que sim. Eu conheci algumas pessoas que tentam viver ali uma vida bem simples, uma vida não muito hierarquizada e sentam todos ao redor da mesa. Eu creio que eles tentam resgatar um pouco do cristianismo primitivo. Eles procuram também viver uma vida simples, sem a força da religião ditando tudo o que a pessoa tem que fazer. Eles procuram também viver uma vida onde as pessoas possam ter uma espontaneidade, uma espiritualidade. Acredito sim que as igrejas orgânicas são uma alternativa. 

9 - AH: Me lembro de você já ter dito que não gosta muito de balada gospel e similares. Você pode dizer por quê?

UM: Olha, eu acho que tudo que a Igreja tenta copiar de fora para poder juntar pessoas, fazer algo alternativo aquilo que eles dizem que é do mundo, acaba ficando "cafona", muito sem graça e feio. Eu acredito que por proibir muitas pessoas de participar de certos eventos, a Igreja tende hoje em dia a compensar, colocando o nome de "gospel" em uma coisa que seria mundana. Eu acho que seria melhor se a pessoa curtisse um baile, com a sua mentalidade de cristão, indo para se divertir, para brincar ou indo para um forró ou algum tipo de balada e ali vivesse sua vida de cristão, do que a Igreja ter que se prestar a isso. Eu acho feio, não gosto. 

10 - AH: Esta pergunta está relacionada a pergunta feita acima. Você acha que convém para um cristão ouvir música secular?

UM: Eu tenho certeza que esse movimento de não fazer isso, não fazer aquilo, teve origem no começo do século XX nos EUA, com aquelas igrejas de uma busca de uma santidade, de algo muito além do que a gente está vivendo. Para mim, música é música. Eu acredito que as pessoas saíram um pouco daquilo que representa a música. Eu acho que a música tem que apontar a vida, cantar a beleza da vida, mas também denunciar nossas mazelas sociais e nossos problemas. O papel da música também é trazer uma indagação para as pessoas, levando as mesmas a denunciarem aquilo que não está certo. E eu acredito que desde o passado não houve essa diferenciação entre o que é música secular e o que não é. Os tempos mudam. Até pouco tempo, em muitas igrejas não podiam tocar guitarra elétrica e nem bateria e hoje em dia já pode. Ou seja: era pecado e agora não é? Acredito que é um pensamento de época e também muito fechado. Eu acho que música é uma coisa universal.

11 - AH: E o sexo antes do casamento. É lícito para um cristão?

UM: Bem, eu não tenho restrição a isso. Eu acho que a própria religião de tanto proibir, gera em alguns casos pessoas com um desejo muito grande por conta da excessiva proibição. É uma linguagem meio estranha o que eu eu vou falar aqui, mas é aquilo: o não gera o tesão. E por que não, se é uma coisa boa? Eu acho que a Igreja pega um versículo fora de seu contexto para condenar a fornicação. Só que no original, fornicação era uma prática que se tinha nas pilastras de um templo onde as pessoas se prostituíam. Ali não tinha amor, ali não tinha paixão e ali não tinha carinho. Era uma perversidade o que havia ali. E neste local havia até abuso de mulheres, onde algumas mulheres eram forçadas a ter relações. Eu acredito que o sexo tem que ser ensinado e que tem uma hora certa para acontecer. Mas quem vai dizer isso é a própria pessoa. Eu acredito que se as igrejas tratarem o sexo de uma maneira mais branda, de uma maneira mais natural, as pessoas não teriam tantos problemas, não teriam tantos traumas e não teriam tanto medo de pecar.

12 - AH: Você tem uma afinidade política com o PCB. Quando começou essa relação?

UM: Eu sempre gostei de política, como lhe falei, mas sempre acreditei que o cristão tinha que estar na política. Na Bíblia, muitos profetas e pessoas exerciam papéis políticos. Daniel e muitos outros que agora eu não lembro o nome são alguns exemplos. E eu sempre tive o desejo de conhecer o comunismo. É a única doutrina que prega o comum e eu sempre tive uma afinidade com o comum, com o partilhar. Então, eu fui conhecendo alguns partidos e eu vi que o PCB tinha uma corrente de pensamento mais sólida. O PCB tem uma teoria. E eu preciso aprender e conhecer o marxismo, o leninismo e os movimentos que aconteceram ao redor do mundo. E eu não só me aproximei do PCB, como estou militando por este mesmo partido. Estou em uma célula e tenho achado muito bom. Houve alguns excessos em algumas épocas, houve alguns problemas e muitos acham que para ser comunista tem que ser ateu. Bem, 90% dos comunistas se declaram ateu, mas hoje em dia não tem tanto isso. Creio que no passado já não tinha. Tem muita mentira que as pessoas jogam para difamar estes tipos de movimentos que buscam a emancipação dos trabalhadores. Estou militando pelo PCB e não vejo contradição nenhuma nisso. 

13 - AH: Pelo fato de você residir no Complexo da Maré e por conta de sua militância política, não tem como não falar disso. De que maneira você enxerga a execução de Marielle Franco?

UM: É uma morte, claro. Nós sentimos as dores dos familiares, dos entes queridos, mas tem uma peculiaridade nessa morte. Não estamos aqui dizendo que uma morte é mais importante que a outra. A Marielle tinha um mandato popular. Então, nós nos sentíamos representados por ela. Ela era uma mulher lutadora, que lutava pelos direitos dos LGBTs, dos negros e dos favelados. O assassinato dela representa um golpe para todos nós. Porque, se ela estava lutando pela gente, esse tiro foi um recado bem dado, foi contra nós. A morte dela também atingiu a gente. Atingiu os movimentos que ela representava. É como se dissessem: "vocês fiquem no canto de vocês, o lugar de vocês não é aqui". Quando eu recebi a notícia da morte dela, parece que eu perdi alguém da minha família e até hoje existe uma lacuna, um vácuo. Isso porque foi um tiro em cada um de nós. Arrancou um pedaço de cada um de nós.

14 - AH: Você pode deixar uma mensagem para os leitores do blog A Hora?

UM: A mensagem que eu deixo aqui é que, se existe algo na vida e este algo vai trazer a emancipação, vai tirar alguém da exploração, essa causa tem que ser levada até o fim. Se deve lutar por ela e eu acredito que isso é o que a gente pode fazer na nossa vida. Uns preferem viver como se nada tivesse acontecendo e outros dão a vida por uma causa. E eu acredito que o caminho é darmos a vida por aquilo que achamos que é justo. É como disse a Olga Benário (1908 - 1942) em uma carta que ela escreveu para Luís Carlos Prestes (1908 - 1990) antes de ser morta em uma câmara de gás: "lutei pelo bom, pelo justo e pelo melhor do mundo". 

19/04/2018

Aline Barros - a diva gospel que nunca sai do topo

Aline Barros em pose para foto. Imagem: Reprodução. 

     Aline Barros é um cantora evangélica brasileira que já tem um tempo considerável de ministério. Aliás, este ministério é muito bem sucedido, diga-se por sinal. Entra época, sai época, cantores ficam em alta, cantores ficam em baixa, mas Aline Barros segue invicta há décadas.
     Aline Barros é nascida e criada em uma família evangélica, sendo filha de pastores. O gosto pela música veio quando ainda era uma criança e quando tinha cerca de 9 anos de idade já acompanhava o pai e o ministério de louvor da igreja na qual fazia parte. Chegou a se graduar em Biologia Marinha pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas seu gosto pela música falou mais alto e Aline nunca exerceu a profissão. Aline Barros iniciou seu ministério em 1991 ao gravar a canção Tua Palavra. A música caiu no gosto do público cristão da época e também de algumas rádios evangélicas, ficando pouco mais de um mês entre as mais tocadas. Talvez, os mais novos podem pensar que o único mega hit de Aline Barros é Ressuscita-me, do CD Extraordinário Amor de Deus (2011), mas isso não é verdade. Por volta de 17 anos antes de lançar o álbum em questão, Aline, junto com os integrantes da Comunidade Evangélica Vila da Penha, lançou o mega hit Consagração, que foi cantada incansavelmente nas igrejas de todo o país e ficou por volta de nove meses em primeiro lugar nas rádios evangélicas de todo o Brasil. De lá para cá, Aline Barros só tem sucessos no currículo. Aline tem uma vasta discografia de sucessos que inclui CDs, DVDs, álbuns infantis e coletâneas. Somando tudo, a cantora em questão tem no currículo cerca de 15 discos de Ouro, 10 discos de Platina, 5 discos Platina Duplo, 3 discos Platina Triplo e 3 discos de Diamante e um disco Diamante Duplo. Ao longo de seu ministério, Aline Barros vendeu cerca de 15 milhões de cópias. E isso sem contar com os prêmios recebidos e indicados. Aline já foi indicada (e ganhou muitas vezes) duas vezes ao  Dove Awards, onze vezes ao Troféu Talento, sete vezes ao Troféu Promessas, quatro vezes ao Troféu Imprensa, duas vezes ao Brazilian IP Awards, uma vez ao Prêmio Arpa e nove vezes ao Grammy Latino, levando o gramofone para casa em sete ocasiões. Já alguns de seus muitos hits são: Fico Feliz, Recomeçar, Apaixonado, Sonda-me, Usa-me, Diante da Cruz, Ressuscita-me, Primeira Essência, Casa do Pai e Depois da Cruz. O ministério de Aline Barros é expressivo e admirável.

Aline Barros realizando seu discurso na ocasião em que ganhou o Grammy Latino pela sétima vez, em novembro de 2017. Imagem: Reprodução. 

     O ministério de Aline Barros se torna ainda mais peculiar se for analisado o contexto em que o mesmo é realizado. A música de uma forma geral, em especial a música gospel, sofreu e continua sofrendo inúmeras transformações ao longo do tempo. Novos ritmos são incorporados, cantores chegam ao estrelato e cantores saem do estrelato. Tem também a pirataria, uma realidade que assombra a cantores e aqueles que trabalham com música em geral. A prática da mesma faz com que premiações como Disco de Ouro, de Platina, Platina Duplo, Platina Triplo e Diamante por exemplo sejam constantemente atualizadas. Além disso, o Youtube e os aplicativos de música em geral são uma realidade acessível e reflete na redução da venda de CDs. Uma pessoa que gosta de duas ou três músicas de um CD dificilmente vai gastar quase R$ 20,00 ou mais em um por causa das três músicas. Atualmente, só compra CD quem realmente gosta e acompanha a carreira do cantor. Assim como na música secular, na música gospel também há cantores que já estiveram no auge de seus ministérios e hoje não estão mais. São cantores que chegaram a pontos extremamente altos de seus respectivos ministérios, lançaram discos impactantes, que marcaram gerações e renderam incontáveis premiações, mas que nos últimos anos têm deixado a desejar em seus discos. Tais cantores vivem mais do legado que deixaram para a música cristã brasileira, do que pelos lançamentos de seus discos. Porém, definitivamente este não é o caso de Aline Barros. Há mais de duas décadas que os discos de Aline têm sempre uma venda expressiva e são premiados por conta disso. Aline não está livre das transformações e crises que constantemente ocorrem na música cristã, ela só consegue sair invicta das mesmas, ao contrário do que acontece com muitos cantores cristãos. Não é difícil entender como isso acontece.



     Aline Barros foi pioneira ao adentrar a mídia secular e divulgar na mesma o seu ministério. Por causa de Aline Barros e outros cantores evangélicos, é muito comum na atualidade se ver cantores cristãos em mídias não cristãs. Entretanto, nem sempre foi assim. Em 1994, Aline Barros, como integrante da Comunidade da Vila da Penha, foi ao programa Xuxa Park e cantou Consagração, canção que fazia grande sucesso na época. Aline Barros foi criticada por estar "se vendendo" e também pelo fato dela estar indo no programa de Xuxa, mulher na qual muitos cristãos acreditavam ter feito pacto com o tinhoso. Hoje, o fato virou motivo de piadas até para a própria Xuxa, que já riu da situação diversas vezes. Porém, naquela época este boato era muito forte. No ano de 1995, Xuxa e Aline Barros gravam Crer Para Ver, que entrou para o álbum Luz no Meu Caminho (1995), disco de Xuxa Meneghel. Em 1996, ocasião em que Xuxa completou 10 anos de TV Globo, houve uma edição especial do Xuxa Park para a data comemorativa (que incluiu até uma nave branca onde Xuxa entrava e saía nos tempos de Xou da Xuxa). Aline Barros estava presente e cantou Minha Rainha para Xuxa. O fato gerou polêmicas porque alguns cristãos acharam que Aline estava colocando Xuxa no lugar de Deus ao cantar a canção para a eterna Rainha dos Baixinhos. Outra apresentação marcante de Aline Barros em um programa de Xuxa foi no ano de 2012. Xuxa apresentava o TV Xuxa nas tarde de sábado da Rede Globo. Aline foi no programa da loira e cantou Ressuscita-me, que estava fazendo um enorme sucesso na época. Xuxa  ficou extremamente emocionada enquanto Aline cantava e até chorou. Quem também se emocionou com uma apresentação de Aline Barros foi a apresentadora Eliana. Também no ano de 2012, Aline foi no programa dominical da loira no SBT e ao cantar o mega sucesso Ressuscita-me, Eliana chorou copiosamente diante das câmeras. Além disso, Aline Barros já marcou presença no Domingo Legal, no Domingão do Faustão, já deu entrevistas para o TV Fama, para Marília Gabriela e também já foi entrevistada por Mariana Godoy, a última entrevista que Aline Barros deu antes do fechamento deste texto. Além dos já citados, Aline Barros já apareceu em vários programas seculares.

Aline Barros foi entrevistada recentemente por Mariana Godoy, onde falou de assuntos polêmicos. Imagem: Reprodução. 

      Ser presença constante na mídia secular é um diferencial porque a pessoa acaba atingindo outros públicos e isso é positivo na venda de álbuns, que tende a aumentar com o acesso em tal mídia. Aline Barros, como já dito acima, foi pioneira ao marcar presença na mídia secular e consequentemente foi pioneira também ao atingir o público não cristão com suas canções. Isso aconteceu em um momento em que os evangélicos no Brasil eram vistos com ressalvas e preconceitos. Vale lembrar também que Aline Barros já teve uma de suas canções que entrou para a trilha sonora de uma novela. Duas Caras (2007), novela de Aguinaldo Silva, teve em sua trilha  sonora a canção Recomeçar, de Aline Barros. Aline foi a primeira cantora gospel a ter uma canção em uma trilha sonora de novela da TV Globo.
     Outro fator que explica o sucesso de Aline Barros é o jeito doce e educado com que trata as mais diversas pessoas, já que uma boa receptividade atrai muita gente. Além disso, a cantora em questão evita entrar em assuntos polêmicos, principalmente quando os mesmos são do campo religioso. Aline Barros só costuma falar de questões LGBTs quando é perguntada sobre tal e isso já aconteceu mais de uma vez. De uma forma bastante educada e procurando medir bastante as palavras, Aline diz que condena a homossexualidade porque é algo que a Bíblia reprova. Entretanto, por mais educada que seja a resposta de Aline, a polêmica sempre vem. A cantora em questão evita falar de assuntos polêmicos para não colocar a sua boa relação com os demais setores da sociedade em xeque e consequentemente trazer um reflexo negativo na venda de seus álbuns. Aline Barros não vê a homossexualidade com bons olhos e o que a difere dos demais é o modo como ela lida com a situação. Ela não concorda, mas também não age como Silas Malafaia ou Marco Feliciano, que são verdadeiros militantes Anti-LGBT e muito menos age como Ana Paula Valadão, que em 2016 encabeçou uma campanha de boicote contra a loja de roupas C&A, acusando a mesma de ter lançado um comercial que feria os valores cristãos. Como dizem por aí, o tiro saiu pela culatra e a loja de roupas em questão obteve ainda mais visibilidade. Aline Barros também não age como os irmãos do Trio R3, que no fim de 2017 lançaram a música Nosso Gênero Vem de Deus, que reforça os dogmas do cristianismo e reprova o comportamento dos LGBTs. Aline Barros não vê a homossexualidade com bons olhos, mas ela não procura falar sobre isso (só fala quando perguntada) e quando fala, procura dar a resposta mais direta, educada e curta possível. É importante lembrar também que há LGBTs que professam a fé cristã e que gostam das músicas de Aline Barros.

Conclusão

     Aline Barros é uma diva gospel que não sai do topo porque tem passe livre em programas seculares, que com a alcance que são capazes de atingir, são ótimos na divulgação de qualquer trabalho. Além disso, Aline procura manter uma boa relação com os mais diversos setores da sociedade, já que seu trabalho não alcança somente o público cristão. Ao longo da história da música cristã no Brasil, cantores tiveram mais visibilidade em uma época e menos em outra, mas este definitivamente não é o caso de Aline Barros, que segue invicta e no auge há mais de duas décadas e meia. 

17/04/2018

Conciliação de classes - uma prática que a História já mostrou ser ineficaz

Getúlio Vargas é o primeiro Presidente da República a fazer a conciliação de classes no Brasil. Imagem: Reprodução. 

     Ao contrário do que alguns podem pensar, a conciliação de classes não é uma novidade no Brasil. Em outras épocas, presidentes da república já fizeram isso e os mesmos continuam a inspirar políticos da atualidade. Entretanto, o que alguns políticos talvez não tenham percebido é que a conciliação de classes é algo ineficaz a médio e longo prazo.
     Getúlio Vargas (1882 - 1954) foi o primeiro Presidente da República no Brasil a tentar conciliar as classes sociais. Por um lado, atendeu a demandas antigas dos trabalhadores, criando uma carga horária diária de trabalho que não podia ser ultrapassada, criou as férias remuneradas e também as CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Por outro lado, procurou também agradar a burguesia, censurou a imprensa, perseguiu opositores políticos e implantou uma ditadura em 1937, que é conhecida como a ditadura do Estado Novo e que só acabaria em 1945. Vargas voltaria a sentar na cadeira da Presidência da República novamente em 1950, mas desta vez ele foi eleito pelas vias democráticas. Entretanto, os tempos eram outros, conciliar as classes como fez na primeira vez em que se tornou presidente não era uma coisa fácil de se fazer no Brasil da década de 1950. Uma grave crise política se instalou no último mandato presidencial de Getúlio Vargas e isso se deve em parte pela conciliação de classes que o então presidente havia feito no passado. Conciliar as classes não era a solução: era preciso mudanças estruturais na sociedade para que a mesma fosse de fato igualitária. Grandes jornais, militares, políticos, intelectuais e a elite começaram a tramar para tirar Vargas do poder. A crise se tornou extremamente aguda e o então presidente não viu outra opção a não ser renunciar ao cargo. Entretanto, ele não fez isso de qualquer jeito: deixou uma carta-testamento direcionada aos pobres onde dizia quem eram os responsáveis pela sua morte e em seguida se matou com um tiro no peito. A morte de Vargas causou uma comoção e também uma revolta nacional, uma vez que a carta-testamento deixada por Getúlio Vargas foi reproduzida em rádios e jornais. Os meios de comunicação que sistematicamente atacavam Vargas foram depredados. Além disso, o jornalista e político Carlos Lacerda (1935 - 1977), opositor ferrenho e declarado de Vargas, junto de algumas pessoas, tiveram de ficar um tempo fora do Brasil, tamanha a revolta do povo brasileiro naquele momento.
     Outro presidente que acreditava na conciliação de classes era João Goulart (1919 - 1976). Vice presidente de Jânio Quadros (1917 - 1992), assumiu a presidência após o mesmo renunciar sem dar maiores explicações. Jango, como também era carinhosamente chamado, era herdeiro de uma tradição política de conciliação entre a burguesia e o proletariado. O então presidente quis o apoio do PSD e do PTB, mas também aceitou alianças com a esquerda. João Goulart acreditava em um capitalismo menos selvagem e mais humano. Desejou realizar profundas mudanças estruturais no país por meio das Reformas de Base, mas ele foi derrubado em 1964 e em seu lugar entrou uma ditadura que só findaria em 1985.

O ex-presidente Lula se inspira em Getúlio Vargas. Imagem: Diego Nigro/JC Imagem. 

     Lula é outro político que tentou conciliar as classes no Brasil quando era presidente. Ele havia tentado se eleger em 1989, 1994 e 1998. Tentou em 2002 e enfim conseguiu, mas para isso algumas mudanças precisaram ser feitas. O discurso da campanha presidencial de Lula em 2002 não era tão radical quanto nos anos anteriores: era um discurso conciliador e mais moderado. Para chegar ao poder, Lula contou com o apoio da ala evangélica, do empresariado e dos grandes fazendeiros. Ao mesmo tempo em que beneficiava as elites, Lula melhorou significativamente a vida dos mais pobres no Brasil. Quem também conciliou as classes foi Dilma Rousseff quando foi eleita Presidente da República. A conciliação de classes (também conhecida como governabilidade) parecia ser o modo perfeito de governar o Brasil. Entretanto, as Manifestações de Junho de 2013 mostraram exatamente o contrário. Não foi este o fator determinante, mas uma das causas que explicam as Jornadas de Junho de 2013 foi a falência de um modo de governar que até então estava em vigor no país. Foi também por conta da governabilidade que Dilma Rousseff sofreu um golpe e Lula é vítima de um processo extremamente arbitrário que na prática nada mais é do que um processo político. Nos últimos tempos, Lula tem se aproximado mais das camadas mais humildes da população, direcionando seu discurso para as mesmas. O povo só é lembrado quando se é necessário solucionar uma crise.

Conclusão

     A História já mostrou que a conciliação de classes é algo que não dá certo a médio e longo prazo. Isso porque em algum momento as mudanças na sociedade terão de ser aprofundadas. Seria muito bom para alguns se as mudanças estruturais na sociedade fossem feitas sem que ninguém perdesse seus privilégios. Porém, não é isso o que acontece: para que a sociedade se torne de fato igualitária, é preciso que reformas profundas aconteçam e, para isso, alguém tem que abrir mão de seus privilégios. E isso é algo que ninguém quer fazer. A burguesia não está disposta a perder seus privilégios e para isso faz um "grande acordo nacional" para garantir a manutenção dos mesmos. Este acordo incluiu o empresariado, o agronegócio, a grande mídia, o Congresso Nacional, o Judiciário e o Supremo Tribunal Federal. E quanto ao proletariado, não resta outra alternativa, a não ser tomar as ruas. 
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