23/05/2017

Neymar - o jogador midiático

Neymar é, sem dúvidas, o maior jogador de futebol do Brasil na atualidade. Imagem: Reprodução.


     Neymar é um jogador excepcional, disso não há dúvidas. Ele joga futebol maravilhosamente bem e é o maior nome do futebol brasileiro atualmente. Entretanto, o talento deste rapaz acaba ficando em segundo plano. Ele sempre está na mídia, mas por outras razões. Sabemos tudo sobre ele: as roupas que usa, os presentes que ganha, os presentes que dá, os cortes de cabelo que adota, as tatuagens que faz e as festas que frequenta. Desta forma, o talento de Neymar enquanto jogador de futebol acaba ficando em segundo plano.

Neymar jogando com a camisa do Santos. Foi este time de futebol que o consagrou. Imagem: Reprodução.

      Neymar é uma pessoa vinda de uma família humilde (ele herdou o nome do pai) e nasceu em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, mas ainda jovem se mudou para São Vicente e posteriormente para Santos. Em 2003, quando tinha onze anos de idade, chegou às categorias de base do Santos, onde permaneceu até se tornar profissional. Como a família do jogador em questão possuía poucos recursos, a medida que o salário do jovem ia aumentando, o nível de vida da família melhorava. A carreira de Neymar começou nas categorias de base da Portuguesa Santista em 1998 e em 2003 foi transferido para o Santos. Após seis anos no clube foi promovido ao elenco principal. No ano em que fez sua estreia com a equipe profissional, Neymar foi considerado a maior revelação do Campeonato Paulista. Era apenas o começo de uma carreira que alcançaria nível internacional. Lembrando que o assédio da mídia aumentava a medida que a carreira de Neymar alcançava patamares mais altos.

Neymar e Thiaguinho durante apresentação. O craque chegou a gravar um clipe com Thiaguinho. Imagem: Orlando Oliveira, Danilo Carvalho e Francisco Cepeda/AgNews. 

      A fama de Neymar ultrapassou o mundo futebolístico e alguns se aproveitaram disso, inclusive o próprio jogador, que ganha muito dinheiro com isso. O jogador tem sua imagem ligada a campanhas publicitárias de empresas como Nike, Red Bull, Guaraná Antarctica, Banco Santander, Claro, Lupo, Unilever, Volkswagem e Gillette. Nada contra participar de campanhas publicitárias de grandes marcas, principalmente quando se está lucrando com isso. Dinheiro é bom e todo mundo gosta. Além disso, Neymar se mostrou um excelente divulgador de música de vários cantores. Um vídeo em que o jogador aparece dançando Ai se Eu Te Pego de Michel Teló se tornou um viral na rede e o craque comemorava os seus gols fazendo a coreografia da música. A repercussão foi tanta que Neymar chegou a aparecer em shows de Michel Teló. O craque também marcou presença em shows do cantor Gusttavo Lima, cantando (?) ao vivo com o mesmo as músicas Balada e Fazer beber. No ano de 2012, o jogador apareceu no videoclipe da música Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha de João Lucas & Marcelo. Neymar apareceu também em um vídeo de rap intitulado País do Futebol de MC Guimê e Emicida. Além disso, o craque também fez uma participação no clipe da música Caraca, Muleke! do cantor Thiaguinho. Neymar não tem talento para a música, mas como ele pode levar muita gente ao estrelato, alguns acabam se aproveitando disso.
      Além disso, tudo o que Neymar faz fora de campo se torna notícia de destaque. A mídia ficou sabendo quando ele teve um filho com uma menor de idade, a mídia ficou sabendo do valor mensal da pensão da criança bem como da cobertura que Neymar deu para a mãe e o filho morarem, a mídia ficou sabendo quando começou, terminou e recomeçou o relacionamento amoroso do craque com a atriz global Bruna Marquezine. Isso sem falar no par de brincos avaliados em R$ 10 mil que o jogador deu para a atriz Paolla Oliveira, a mansão avaliada em R$ 28 milhões localizada em Mangaratiba (RJ), o carro de mais de meio milhão de reais que comprou e o vinho nada barato que o jogador bebeu ao lado da namorada. Citando apenas uma pequena parte dos prêmios individuais, Neymar foi a revelação do Campeonato Paulista de 2009, foi eleito o melhor jogador do mesmo campeonato no ano seguinte, ganhou uma Bola de Prata da Revista Placar em 2010 e 2011, ganhou Chuteira de Ouro da mesma revista em 2010, 2011 e 2012, foi eleito Craque do Brasileirão em 2010, 2011 e 2012; e foi eleito terceiro melhor jogador do mundo pela FIFA em 2015. A pequena amostra da imensa lista de prêmios de Neymar revela o seu grande talento para o futebol. Entretanto, na prática tudo isso fica em segundo plano porque sabemos de tudo o que o jogador faz fora de campo e isso acaba ofuscando o talento que Neymar tem para o futebol. Vale ressaltar que a mídia tem um papel fundamental em tudo isso.

Neymar durante pancadaria generalizada entre os jogadores do Santos (time do então jogador) e os jogadores do Peñarol após a Libertadores da América de 2011 cujo time campeão foi o primeiro. Imagem: Rodolfo Buhrer/Reuters. 

      Em setembro de 2010, Neymar (que na época jogava pelo Santos), durante uma partida contra o Avaí, reclamou do excesso de faltas recebidas. Entretanto, o técnico do Avaí Antônio Lopes (atualmente no Botafogo) disse que é Neymar quem deve se comportar melhor e acusou o jogador de ter agredido um defensor do seu time e, além disso, o acusou de ter provocado o zagueiro Emerson Nunes (que agora é auxiliar técnico do Joinville), dizendo "sou milionário e posso tudo". No mesmo mês e no meso ano, em uma partida contra o Atlético Goianiense, ao receber ordens do técnico santista Dorival Júnior para não bater o pênalti, um furioso Neymar discutiu com o treinador. Segundo o site esportivo Lancenet, a fúria de Neymar continuou após o jogo, chegando a atirar um copo com isotônico no auxiliar de Dorival. O então técnico da equipe goiana Renê Simões disse sobre Neymar: "Com toda experiência que tenho, com todos esses anos de futebol, eu nunca vi ninguém tão mal-educado desportivamente como esse rapaz, Neymar. Em nome da arte, em nome do futebol, estão criando um monstro."
      No dia 06 de outubro de 2010 o periódico esportivo LANCE! publicou uma  reportagem onde afirmava que Neymar e outros jogadores santistas tiveram uma noite animada que contou com a presença de garotas de programa após uma partida contra o Grêmio, em Porto Alegre (RS). O episódio culminou na demissão de Dorival Júnior porque este ficou revoltado e pediu punição a Neymar e os outros jogadores à diretoria do Santos, mas não foi atendido. Neymar também já trocou empurrões e xingamentos com o também jogador Marcel. A situação não se tornou mais grave porque o pessoal do deixa disso entrou em ação. Em janeiro de 2011, durante entrevista, o ex-volante santista Roberto Brum fez uma revelação bombástica sobre a demissão de Dorival Júnior, dizendo que "o elenco foi ameaçado de não ganhar salário se Neymar não jogasse contra o Corinthians". Este fato prova que muita gente, inclusive a mídia, passava (ou ainda passa) a mão da cabeça de Neymar, mesmo o jogador cometendo inúmeros erros e sendo criticado por isso. A lista de polêmicas de Neymar é extensa (tem também o episódio em que ele discutiu com torcedores após a seleção brasileira ter ganhado medalha de ouro nas Olimpíadas 2016 e o escândalo de que ele teria sonegado impostos. O último episódio foi parar nos tribunais e no fim o craque foi inocentado) e seriam necessários mais de dois parágrafos para listar as mesmas. Atualmente, o craque aparenta calma, maturidade e humildade. É fato que as polêmicas continuam lá, mas se deve reconhecer que é visível a mudança na postura de Neymar dentro e fora dos campos. Será que o jogador de fato amadureceu ou ele se viu forçado a mudar seu comportamento para não ver sua carreira naufragar, vivendo de aparências?

Conclusão

      Neymar é um jogador excepcional e sem dúvidas o maior nome do futebol brasileiro na atualidade. Entretanto (por ser mal assessorado, talvez), não é o talento para o futebol que o craque tem que ganha destaque, mas sim as suas polêmicas dentro e fora de campo; bem como as campanhas publicitárias que participa e a vida de luxo que exibe nas redes sociais. 

18/05/2017

A persistente invisibilidade sofrida pelo futebol feminino

A seleção brasileira de futebol em pose para foto antes de partida. Foto: Ricardo Stuckert/CBF. 


     Praticamente todos (ou pelo menos a maioria) os clubes de futebol do país e do exterior possuem a categoria feminina de futebol. As futebolistas são dedicadas e estão organizadas em categorias que jogam regularmente. Entretanto, pouco ou nada se falam sobre elas. Os diversos sites e programas de TV de cunho esportivo dedicam parte considerável do horário para falarem de futebol, mas somente a categoria masculina. É como se a categoria feminina não existisse. Mesmo sendo tão boas ou melhores que muitos jogadores, as jogadoras não recebem o devido reconhecimento.
      Clubes de pequeno, médio e grande porte mundo a fora possuem a categoria feminina de futebol. Elas até viraram jogos de Playstation. Programas esportivos da televisão e páginas virtuais dedicadas ao esporte dedicam parte considerável de seu tempo para falarem de futebol, mas apenas sobre a categoria masculina. Emissoras de televisão disputam horários de partidas de futebol masculino, mas o mesmo não acontece com o futebol feminino. Páginas virtuais que se dedicam inteiramente ao futebol nem sequer citam o futebol feminino, é como se ele não existisse. No ano de 2015 houve a Copa do Mundo de Futebol Feminino, cujo anfitrião foi o Canadá. A seleção feminina chegou às oitavas de final, não se classificando para a próxima fase. Durante o período da Copa em questão não teve feriados em dias de jogo do Brasil, não se viu pessoas em frente a TV torcendo para as meninas, não se viu pessoas andando nas ruas com a blusa da seleção brasileira e nem se viu também manifestações de orgulho nacional. A grande mídia praticamente não falou sobre o assunto. Era como se nada estivesse acontecendo.

Marta em pose para a foto. Imagem: Getty Images

      Esta pessoa é considerada a maior artilheira da seleção brasileira, título que até então pertencia a Pelé. O rei do futebol se consagrou como o maior artilheiro da seleção com 95 gols em seu 114º jogo. Esta pessoa se consagrou como a maior artilheira com 98 gols em seu 100º jogo. Esta mesma pessoa foi eleita a melhor do mundo em 2006, 2007, 2008 e 2009 pela FIFA. Foi também pela FIFA que ela ganhou o prêmio Bola de Ouro, em 2010. Ela ganhou o prêmio Bola de Ouro em 2004, uma Bola de Ouro e uma Chuteira de Ouro no ano de 2007. Se você acha que a pessoa em questão é um homem, se enganou. Todos os prêmios aqui citados pertencem a Marta, maior artilheira da seleção brasileira de futebol e também capitã da mesma. Entretanto, Marta não tem o reconhecimento que merece. Se Marta fosse um homem, será que teria mais visibilidade? Será que teria milhões de seguidores nas redes sociais? Será que teria um salário milionário? Será que faria milhares de campanhas publicitárias? Será que teria seu nome dito incansavelmente em jornais esportivos e programas especializados em celebridades? Será que torcidas inteiras gritariam seu nome durante as partidas?

Formiga é uma futebolista brasileira que já jogou pela seleção em seis edições dos Jogos Olímpicos. Imagem: Reprodução.

     Já está outra pessoa é nascida em 1978 e está em plena atividade. Em seu currículo constam seis Copas do Mundo: 1995, 1999, 2003, 2007, 2011 e 2015. Ela também participou de seis Jogos Olímpicos, a saber: Atlanta 1996, Sydney 2000, Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016. Desta forma, esta pessoa é, ao lado da japonesa Homare Sawa, recordista em participações em Copas do Mundo: 6. Além disso, esta mesma pessoa é a única futebolista do mundo a ter participado de seis Jogos Olímpicos desde que o futebol feminino se tornou um esporte olímpico. Segundo dados da CBF, esta pessoa até o momento já jogou 151 partidas pelo Brasil, ultrapassando o lateral Cafu, que até então detinha esse recorde. Como você já pode ter percebido, não estamos falando de nenhum homem, mas sim de uma mulher. A dona dos recordes aqui citado é Formiga, jogadora de futebol brasileira que atua como meia. Você costuma ver a Formiga com frequência na televisão? Costuma ver o nome dela em jornais e revistas? Os programas esportivos falam dela com frequência? Se fosse por qualidade de jogo, o futebol feminino há muito tempo já teria a visibilidade que merece.

Fernando Colombo Uliana durante trabalho em campo. Ela tem seu corpo objetificado com frequência pela mídia esportiva. Imagem: Getty Images.

      As jogadoras acima citadas e tantas outras mundo a fora, assim como o futebol feminino de modo geral, não recebem a visibilidade que merecem porque a lógica de que futebol não é esporte para mulher ainda se faz arraigada na mente de milhões de pessoas. O futebol é um esporte onde a presença de homens é predominante e todo espaço com este perfil tende a ser machista. Apenas lembrando que, salvo algumas exceções, o esporte não é visto como algo para mulheres porque vai de encontro a feminilidade e sensibilidade associada ao sexo feminino. Mas foquemos no futebol. Em tal esporte a mulher é objetificada e xingada. Quando o jogador não é negro, sempre quando o mesmo é xingado, quem recebe os xingamentos de fato é a mulher. São xingamentos que por bom gosto não irei reproduzir aqui. Em 2014, após uma partida entre o Cruzeiro e o Atlético Mineiro (cuja vitória foi do segundo), a bandeirinha Fernanda Colombo Uliana viu seu nome em vários sites e na boca de muitos homens. "Bandeirinha gata é clicada em pose indiscreta" ou "conheça a linda e polêmica bandeirinha" são apenas algumas reportagens feitas sobre Fernanda. "Se ela é bonitinha, que vá posar na Playboy. No futebol tem que ser boa de serviço", disse o então diretor de futebol do Cruzeiro Alexandre Mattos após o clássico mineiro. Não se viu reportagens analisando o trabalho de Fernanda em campo, somente aquelas que objetificavam seu corpo.
     Como já dito no parágrafo acima, a mulher no futebol é objetificada. Em partidas, câmeras procuram mulheres com a blusa do time decotada para focar. Se tiver um celular guardado no meio dos seios, melhor. Aliás, as camisas femininas de times de futebol costumam ser no estilo baby look, ondo a cintura da moça é definida e os seios destacados, com direito a decote. Jornais populares publicam com frequência fotos de mulheres em poses sensuais e com pouca roupa junto do time do coração. O objetivo é eleger a musa de cada time. Os jogadores de futebol costumam ser heterossexuais e casados. Se são homossexuais, para não ver a carreira afundar, escondem a orientação sexual debaixo de sete chaves e enterram sob sete palmos de terra. As esposas dos jogadores estão sempre a sombra de seus maridos, que de fato são a estrela. Elas são sempre lindas (algumas aderiram a cirurgia plástica), bem arrumadas e deslumbrantes. Elas são como um enfeite para seus maridos, seguindo-os aonde eles forem e dispostas a largarem a carreira (caso tenham uma) se for necessário. Estas mulheres na maioria dos casos são brancas. O fato destas mulheres serem casadas não as livra da objetificação. Façam uma busca por aqui e verão que existem páginas virtuais que se dedicam a eleger a mais bela esposa de um jogador de futebol. Vale ressaltar que o futebol, assim como a maioria dos esportes, é um dos poucos espaços que permitem ao negro a ascensão social. Desta forma, a presença de jogadores negros é considerável, mas isso não significa que um futebolista negro não sofre racismo. Alguns conseguem fazer fortuna com o esporte e escolhem uma mulher branca como esposa. É o famoso palmiteiro. E eles não são poucos. Caso queiram aprofundar seus estudos sobre a relação entre racismo e futebol, recomendo o clássico O Negro no Futebol Brasileiro, livro do jornalista Mário Filho (1908-1966), que dá nome ao estádio Maracanã, no Rio de Janeiro. Além disso, blogs e demais páginas feministas e ligadas ao movimento negro já escreveram muitos textos sobre o tema. É só procurar.
       Além de casados, estes mesmos jogadores tem filhos. Se observar, verá que quando o filho é varão, ele vai nos treinos do pai, ele ganha brinquedos relacionados ao futebol, em alguns casos ele é incentivado a jogar futebol e até segue os passos do pai. Entretanto, o mesmo tratamento não é dado quando a filha é uma menina. Com a exceção dos dias de jogos e estando na arquibancada, não é muito comum ver um futebolista levar sua filha menina para os treinos e nem a incentivando a jogar futebol. O que se vê é o reforço de características consideradas condizentes com a de uma menina. As filhas destes jogadores vivem cercadas de todos os elementos culturalmente associados ao sexo feminino. O futebol não é um destes elementos.

Conclusão

      O futebol feminino não tem o devido reconhecimento porque a lógica de que futebol não é coisa de mulher está fortemente arraigada na sociedade. Só é permitido o ingresso da mulher no mundo futebolístico quando ela é a bela esposa de um jogador e que viva a sombra dele. Além disso, para entrar neste mundo, a mulher deve ser vista como um objeto sexual que mexa com o imaginário dos homens. Fora das condições aqui citadas, o acesso da mulher no mundo da bola é negado. 

16/05/2017

O empoderamento feminino cantado por cantoras sertanejas

A dupla Maiara & Maraisa, Marília Mendonça, Naiara Azevedo e a dupla Simone & Simaria são os grandes nomes femininos da música sertaneja na atualidade. Imagem: Reprodução.



     Nos últimos tempos a música sertaneja tem sido invadida por cantoras mulheres. Em dupla ou seguindo carreira solo, estas mulheres têm enriquecido com a música, feito vários shows mundo afora e emplacando hits. Um dos reflexos da grande quantidade de mulheres que vem fazendo sucesso dentro deste estilo musical é o empoderamento do sexo feminino cantado por estas mesmas mulheres. 
     Quando se fala em música sertaneja brasileira, os nomes mais populares são Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo (Depois da morte do irmão, Leonardo seguiu carreira solo), João Paulo & Daniel (Depois da morte de João Paulo, Daniel seguiu carreira solo), Sérgio Reis, Tonico & Tinoco e Milionário & José Rico por exemplo. A grande sensação do momento é o sertanejo universitário, uma vertente do tradicional ritmo sertanejo que se caracteriza por não ser um sertanejo raiz e que, além disso, trás consigo uma levada pop. Nomes conhecidos deste segmento são: Gusttavo Lima, Munhoz & Mariano, Fernando & Sorocaba, Henrique & Juliano, Marcos & Belutti, Michel Teló e Luan Santana (que atualmente não está tão sertanejo universitário assim). 
      Nos últimos anos a música sertaneja está sendo invadida por cantoras mulheres. Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Marília Mendonça, Maiara & Maraisa e Paula Fernandes são alguns exemplos. É importante lembrar que a presença de mulheres na música sertaneja não é algo recente, pelo contrário. Roberta Miranda e as Irmãs Galvão (atualmente As Galvão) estão aí em plena atividade para provar isso. 


As Galvão, dupla sertaneja composta de duas irmãs, estão em atividade desde 1947, sendo a dupla sertaneja com mais tempo em atividade no Brasil. Imagem: Reprodução. 


      Esta onde de mulheres na música sertaneja tem trago reflexos na mesma. Talvez o mais evidente é a mensagem contida nas músicas cantadas por estas mulheres. Em suas músicas, elas sofrem a dor da perda de um grande amor, se afundam na bebida, expressão seus sentimentos sem pudor algum e dão a volta por cima. Estas atitudes vão contra o perfil da mulher donzela: a bela e indiferente que esperam o homem tomar atitude. Em Infiel, a cantora Marília Mendonça conta a história de uma mulher que toma atitude e coloca o marido para fora de casa após uma traição (por isso o título Infiel). Já em Loka, hit da dupla Simone & Simaria e que tem a participação de Anitta, a história é de uma mulher incentivando a amiga a dar a volta por cima após romper com um homem que a fez sofrer e que, além disso, não dá sinais de que irá mudar seu comportamento. Em Meu Violão e o Nosso Cachorro, mega hit da dupla Simone & Simaria, a questão gira em torno de um relacionamento que pode chegar ao fim. Nesta música, o eu lírico garante que se não ficar junto de seu amor, ele pode beber e chorar, mas da casa onde vivem só levará o violão e o cachorro. 
      Se vocês repararem bem, em nenhum momento neste texto foi usada a palavra feminismo, mas sim a palavra empoderamento. Eu, Marllon Alves, particularmente prefiro não chamar tais cantoras de feministas, até porque a maioria delas nem levantam a bandeira do feminismo. Prefiro usar o termo empoderamento feminino porque mesmo que elas não falem em feminismo propriamente dito, elas incentivam a mulher a tomar uma atitude, procuram levantar a auto-estima da mesma e adotam um comportamento que culturalmente não é visto como adequado para a mulher, como por exemplo o hábito de beber, ir para a balada e sair com vários homens. O mega sucesso Cuida Bem Dela, da dupla Henrique & Juliano e que possui milhões de visualizações  no Youtube, é composta por quatro pessoas, entre elas Marília Mendonça e Maraísa, que faz dupla com a irmã gêmea Maiara (ambas tem feito grande sucesso em todo o país). A música é criticada por algumas feministas porque o eu lírico fala da mulher como quem fala de um carro muito valioso. É como se estivesse entregando um carro para alguém e dissesse: "tome cuidado com isso". Mulher não é nenhuma coitadinha e nem precisa de alguém para cuidar dela.

Conclusão

      A grande quantidade de mulheres cantando músicas sertanejas (e que tem feito sucesso com isso) tem como principal reflexo a mensagem presente nas canções das mesmas. Tais procuram levantar a auto-estima da mulher e incentivam a mesma a tomar atitudes quando preciso. Isso vai de encontro ao papel tradicionalmente considerado feminino, ligado a submissão e a dependência. Mesmo que em algum momento estas mulheres reproduzam o machismo, não se pode negar o empoderamento feminino cantado pelas mesmas. 

11/05/2017

Novelas: um fenômeno que deve ser estudado pela academia

Logotipo das novelas de diferentes época da Rede Globo. Tradicionalmente, as novelas globais são as melhores, marcaram gerações e fizeram história na televisão brasileira. Imagem: Reprodução. 

     Novela, ou melhor: telenovela, é uma narrativa contada na televisão por meio de capítulos onde há várias histórias relacionadas a uma história principal, a dos protagonistas. No Brasil, as novelas são extremamente populares e fazem sucesso também no exterior. Como qualquer produto de seu tempo, as novelas carregam características da época em que foram produzidas.
      É impossível citar novelas no Brasil e não falar daquelas que foram produzidas pela Rede Globo de Televisão. A emissora de TV que nasceu em 1965 começou a produzir novelas e não demorou muito para que se tornasse hegemônica neste setor. Até hoje as novelas da Rede Globo são as melhores. As demais emissoras tentam, mas elas não conseguem quebrar a longa tradição e a liderança da TV Globo na área. O Rebu (1974), Pecado Capital (1975), A Escrava Isaura (1976), Dancin Days (1978), Guerra dos Sexos (1983), Roque Santeiro (1985), Vale Tudo (1988), Barriga de Aluguel (1990), A Próxima Vítima (1995), Explode Coração (1995), O Rei do Gado (1996), A Indomada (1997), Por Amor (1997), Torre de Babel (1998), Terra Nostra (1999), Laços de Família (2000), O Clone (2002), Chocolate Com Pimenta (2003), Senhora do Destino (2004), Alma Gêmea (2005), Duas Caras (2007), A Favorita (2008), Caminho das Índias (2009) e Avenida Brasil (2012) são apenas algumas das muitas novelas da Rede Globo que foram sucesso de audiência.
      Como já dito aqui, as novelas são produtos da época a qual foram produzidas. Desta forma, a mesma reproduz preconceitos e práticas vigentes de sua época. Com isso, uma novela não está isolada de seu contexto histórico. Pelo contrário. Além disso, uma novela ou qualquer outra história transmite mensagens que vão muito além daquilo que está sendo visto. Tais transmitem mensagens sutis, não necessariamente subliminares. Aliás, algumas produções já foram analisadas aqui neste blog, como por exemplo a saga Harry Potter (leia aqui) e o seriado Chaves (leia aqui). Analisar as mensagens que uma novela está passando é um exercício interessante e que ajuda a compreender a sociedade da época em que foi produzida. É fato que a novela é uma obra de ficção e por conta disso exige cuidados ao serem usadas como objeto histórico porque nem tudo o que está ali é real, mas nada impede que uma novela seja usada como objeto de pesquisa.

Da esquerda para a direita: Sílvia (Bete Mendes), Cauê (Buza Ferraz, 1950-2010) e Conrad Mahler (Ziembinski, 1908-1978) em cena da novela O Rebu (1974). Imagem: Reprodução.


     Um senhor de idade muito rico apaixonado por um jovem que era como seu filho adotado, uma festa que reunia a nata da alta sociedade e um corpo que aparece boiando na piscina. É este o enredo da novela O Rebu (1974). No fim, é descoberto que Conrad Mahler (Ziembinski) matou Sílvia por ciúme do filho adotivo Cauê (Buza Ferraz), já que era apaixonado pelo mesmo. Entretanto, um golpe civil-militar havia sido imposto no Brasil 10 anos antes e o mesmo não foi somente um golpe político: foi também um golpe moral. Assim, assuntos que tratavam sobre divórcio, homossexualidade ou que colocassem uma mulher fora do ambiente doméstico eram censurados. É por essa razão que a homossexualidade na novela em questão foi mostrada de forma velada, onde o telespectador podia perceber a mesma. Notemos que a medida que os anos vão passando, os personagens homossexuais e a temática LGBT vem sendo abordada com mais frequência nas telenovelas brasileiras. Isso acontece porque a ditadura chegou ao fim e porque, a pequenos passos, a sociedade vai se tornando gradativamente mais tolerante com relação ao assunto. Entretanto, há um longo caminho a ser percorrido. Os personagens homossexuais são mostrados de forma extremamente cômica e afeminada. Já os casais homossexuais parecem na verdade dois amigos, pois eles não se tocam, não se abraçam ou demonstram afeto. Quando se beijam, são beijos sempre discretos e nada calorosos, ao contrário do que acontece quando um casal hétero se beija. Lembrando que em 2016 a novela Liberdade, Liberdade exibiu uma cena de sexo entre dois homens interpretado pelos atores Caio Blat e Ricardo Pereira. É cena é muito bonita, bem dirigida e movimentou a web. A mesma pode ser vista aqui. O fato da pauta LGBT ser abordada com frequência em telenovelas não significa necessariamente que a LGBTfobia esteja chegando ao fim no país. 

Leôncio (Rubens de Falco) e Rosa (Léa Garcia) em cena da novela A Escrava Isaura (1976). Imagem: Acervo/Globo. 


      Em 1976, o romance de Bernardo Guimarães intitulado A Escrava Isaura ganha a sua primeira adaptação para a televisão. O responsável por fazer isso foi o consagrado novelista Gilberto Braga e a atriz escalada para viver Isaura foi Lucélia Santos, personagem que é lembrado até hoje. Aliás, não é somente Lucélia que é lembrada por este papel, mas a novela de forma de geral. O folhetim em questão foi um sucesso absoluto e exibido em dezenas de países. Na década de 1970, quando a novela foi exibida, o Brasil vivia um período ditatorial e toda produção cultural deveria passar pela censura do regime. Com A Escrava Isaura não foi diferente: a novela foi proibida de exibir cenas de escravos sendo torturados, chicoteados ou coisas do tipo. A ditadura reforçou o mito da democracia racial, onde supostamente o racismo não existe. Assim, mostrar uma novela onde há negros sendo torturados ia de encontro com essa imagem forjada do país. Este fato é no mínimo contraditório, pois quando Bernardo Guimarães escreveu A Escrava Isaura (1875), ele o fez com a finalidade de criticar e denunciar o regime abolicionista que chegaria ao fim em 1888. 
     Aliás, vale destacar o modo como os negros são retratados em novelas. Quase sempre eles são empregados, escravos ou bandidos por exemplo. Vale destacar aqui a atriz Zezé Motta. Ela é uma excelente atriz, experiente e pioneira na história da televisão brasileira. Zezé já mostrou seu talento inúmeras vezes na televisão. Entretanto, se analisar os papéis que a atriz em questão já interpretou, verá que muitos são de escravas ou empregadas. Quando um ator negro não interpreta um personagem com o perfil neste parágrafo descrito, ele também não tem uma história própria, está sempre a sombra de alguém. Ou ele é o melhor amigo do protagonista ou seu personagem serve de "trampolim" para outro personagem. O caso mais recente de personagem com este perfil é o de Marilda, interpretada pela atriz Dandara Mariana em A Força do Querer (2017). Ela não tem história na trama, a sua função é apenas ajudar Ritinha (Ísis Valverde), a protagonista, em suas armações. O modo como o negro é retratado na televisão vem mudando a passos curtos e nesse contexto vale destacar o seriado Malhação, no ar desde 1995. A temporada anterior teve na primeira vez em sua história uma protagonista negra que não rompia totalmente com o modo como o negro historicamente é retratado na televisão. Na já temporada atual uma das cinco protagonistas também é negra. Além disso, a música de abertura da atual temporada é de Karol Conka, cantora conhecida por abordar em suas músicas temas relacionados ao feminismo e ao racismo. A tentativa dos responsáveis pelo seriado em questão é fazer com que o mesmo seja popular. Isso acontece em um momento onde o seriado não dá mais tanta audiência quanto outrora e onde também a discussão em torno do racismo é vista com frequência nos grandes meios de comunicação.
      As novelas acima citadas mostram brevemente que é possível utilizar as mesmas para entender o período em que foram escritas. De fato, são análises superficiais porque se fosse analisar uma novela a fundo, seriam necessários muito mais que um post de um blog

A resistência que as novelas enfrentam no meio acadêmico

      Para estudar as novelas no ambiente acadêmico é preciso enfrentar a barreira da resistência. Isso porque a universidade ainda é um espaço muito elitista e repudia tudo aquilo que vem do povo e como a novela é uma cultura popular, logo ela não é bem vista. Me lembro que sempre quando eu e alguns amigos universitários falamos sobre novela, os demais ficavam incomodados com o assunto porque não gostavam daquilo. Comentando sobre novelas em minha conta pessoal no Facebook, uma amiga universitário perguntou de forma pejorativa se eu havia virado crítico de novelas e terminou dizendo que eu tinha "potencial para coisas mais úteis". Em um seminário de uma disciplina eletiva da universidade, eu citei uma novela que estava sendo exibida na época como exemplo para ilustrar minha fala. Me lembro que vi risos desconcertantes e discretos, tantos dos meus colegas que estavam apresentando junto comigo, como da própria professora. Ela complementou minha fala e finalizou dizendo que o exemplo que usei foi incomum, já que a maioria dos presentes não assistiam novela.
      Tudo isso acontece porque, além do que foi dito acima, não é cult no ambiente acadêmico você dizer que assiste novela. Cult é você dizer que assiste Narcos (2015), Grey's Anatomy (2005), Sense 8 (2015), 13 Reasons Why (2017), The Crown (2016), Orange Is The New Black (2013) ou qualquer outra série que seja exibida na Netflix ou em uma TV por assinatura. Novelas não são bem recebidas no meio acadêmico. 

Conclusão

      As novelas são produtos da época a qual foram produzidas. Por conta disso, elas refletem aspectos da mesma. Desta forma, é válido usar as novelas como objeto histórico, devendo ressaltar que uma novela é uma obra de  ficção e que nem sempre possuem um compromisso com a realidade, salvo algumas exceções. Entretanto, as novelas enfrentam resistência no meio acadêmico, assim como tudo aquilo que tem origem popular. 

09/05/2017

O elitismo (não só) do novelista Manoel Carlos

Manoel Carlos é um renomado novelista brasileiro. Imagem: Reprodução.

     Manoel Carlos é um consagrado novelista brasileiro que já deixou sua marca na história da televisão brasileira. Em seu currículo constam novelas de sucesso que emocionaram o país e levantaram importantes debates. Uma característica marcante deste autor é o fato de suas produções serem ambientadas no bairro onde mora: Leblon.

Regina Duarte e a filha Gabriela. Ambas foram mãe e filha na novela Por Amor (1997). Regina Duarte deu vida a três Helenas de Manoel Carlos. Imagem: Reprodução. 

      As novelas de Manoel Carlos tem sempre uma protagonista cujo nome é Helena. Elas geralmente são mulheres maduras, com filhos e às vezes até avó. Elas vivem uma relação de amor e conflito com seus filhos e estão dispostas a se sacrificar pelos mesmos. Foi o que houve em Por Amor (1997), onde Helena (Regina Duarte) troca o seu filho saudável pelo filho natimorto da filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte), uma vez que ela não mais poderia engravidar. Outro ato de sacrifício e abnegação foi cometido pela Helena (Vera Fisher) de Laços de Família (2000). Ela começa a namorar Edu (Reynaldo Gianecchini, até então estreante em novelas), mas ao perceber que ele e a filha Camila (Carolina Dieckmann) estavam se apaixonados, ela deixa o caminho livre para ambos viverem juntos. Este ato não foi fácil para Helena, que sofreu bastante com isso. Quando a mesma já havia superado a situação e estava em uma relação estável com Miguel (Tony Ramos), a filha Camila descobre que tem leucemia e só poder ser salva por um transplante de medula de alguém que seja compatível. Como o Fred (Luigi Baricelli) é o seu meio-irmão, logo ele não é compatível. Com isso, Helena sacrifica sua relação com Miguel e se deita com Pedro (José Mayer) para engravidar dele e assim salvar a filha. Tudo isso é feito sem que ele soubesse. No fim, Miguel compreende o ato de Helena e ambos terminam juntos.

Marieta Severo deu vida a Alma, uma das personagens principais de Laços de Família (2000). Foi seu último trabalho antes de interpretar por 14 anos a cômica Nenê de A Grande Família (2001-2014). Imagem: Divulgação/TV Globo. 

     As novelas de Manoel Carlos costumam ser ambientadas no Leblon, bairro nobre e tradicional da cidade do Rio de Janeiro. Os personagens costumam tomar café em uma mesa farta e falta de dinheiro não parece ser a grande preocupação da maioria dos personagens. Eles até trabalham, mas as novelas parecem não focar muito isso. A qualquer hora do dia, mesmo sendo dia de semana, eles interrompem o trabalho e vão para a beira da praia chorar e pensar na vida. Além disso, a estratificação social é visível na novela. As Helenas de Maneco costumam ser de classe média. Elas tem um bom emprego, um bom salário e às vezes viajam para o exterior. Elas costumam ter uma amiga da mesma classe social ou inferior a delas, como é o caso de Yvete (Soraya Ravenle) de Laços de Família. Ela era a melhor amiga de Helena e era de origem humilde. Se Helena era filha de um homem que havia sido prefeito e fazendeiro em uma cidade do Rio Grande do Sul e, além disso, podia fazer viagens para o exterior e mandar a filha estudar um período fora, o mesmo não se podia dizer de Yvete. Nas novelas de Manoel Carlos há também os ricos, eles estão sempre lá. Quem já ocupou o topo da pirâmide social das novelas do Maneco foi a Branca (Susana Vieira) em Por Amor (1997). Branca era uma mulher que achava que dinheiro estava acima de tudo e que desprezava os próprios filhos, com exceção de Marcelo (Fábio Assunção), o filho que ela achava que o pai era o homem que amava, mas na verdade esse filho era o Léo (Murilo Benício). Já em Laços de Família (2000), a ricaça da vez era Alma (Marieta Severo), uma mulher estéril que criou os sobrinhos Estela (Júlia Almeida) e Edu (Reynaldo Gianecchini) como seus filhos depois que os mesmos ficaram órfãos. Alma, ao contrário de Branca, vestia a capa da cordialidade e educação (fazendo com que muitos a vissem como falsa), mas na prática ela era uma mulher extremamente seletiva, que acreditava que a alta posição social estava acima de tudo. Alma e Branca eram mulheres ricas e que não trabalhavam, já que tinham muito dinheiro. Ser rico não é ter muito dinheiro, é mais do que isso: ser rico é você não trabalhar e viver maravilhosamente bem com seu dinheiro.

Branca (Susana Vieira) em cena da novela Por Amor (1997).  Ela e a Alma (Marieta Severo) apresentam algumas similaridades. Imagem: Globo/Nelson di Rago. 

     Outra característica entre Alma e Branca é a importância que ambas dão aos filhos. Em Por Amor, Branca chega a discutir com Helena sobre a saúde de Maria Eduarda, uma vez que a mesma tinha uma saúde frágil e chegou a perder o bebê que esperava de Marcelo, que era filho de Branca. A ricaça deixou claro que não queria "netos postiços", ou seja: ela era contra a adoção. Preocupação semelhante é partilhada por Alma em Laços de Família. Camila perde o bebê que esperava de Edu e em seguida descobre que tem leucemia. Quando Camila perde o bebê, a tia de Edu se mostrava mais preocupada com o bebê que Camila perdeu do que com a saúde da jovem. Além disso, Alma queria que Camila tivesse logo outro filho. Quando a esposa de Edu descobre que tem leucemia e consequentemente fica com a saúde fica abalada, a tia do jovem o recomenda a se separar da esposa e casar com uma que mulher que fosse saudável. A preocupação em ter filhos não era a toa: as personagens em questão eram mulheres muito ricas e precisavam de descendentes para administrar a grande fortuna que possuíam. Estes descendentes deveriam ser preferencialmente filhos que não fossem adotados. Se a pessoa morresse sem descendentes, logo aquela fortuna iria parar nas mãos de uma pessoa que não fosse da família. É este o temor de um rico.
     Manoel Carlos é extremamente criticado pelo fato de suas novelas serem ambientadas no Leblon e pelo fato de seus personagens na maioria dos casos ocuparem altas posições na pirâmide social. Entretanto, este elitismo não é uma característica exclusiva do Manoel Carlos. A grande maioria das produções televisivas são contadas a partir de uma ótica elitista. Algumas produções tem mudado este perfil aos poucos, mas há um longo caminho a ser percorrido. Além disso, aqueles novelistas que retratam a favela em seus trabalhos são tão ou pior que Maneco. Isso porque, ao fazerem isso, eles mostram a periferia a partir de seus preconceitos. Os personagens pobres da também novelista Glória Perez são escandalosos, desinibidos e quase sempre possuem um bordão que cai na boca do povo, como o "não é brinquedo, não!" de D. Jura (Solange Couto) em O Clone (2001) ou o "cada mergulho é um flash" de Odete (Mara Manzan) também de O Clone. João Emanuel Carneiro estereotipou a periferia ao retratá-la em Avenida Brasil (2012). Os moradores do fictício bairro do Divino eram escandalosos, gostavam de roupas que chamassem a atenção e gostavam também de músicas popularescas, como o pagode e o funk. O autor repetiu tal coisa ao escrever A Regra do Jogo (2015). Os moradores da periferia tinham perfil semelhante dos de Avenida Brasil. Além disso, na novela havia um MC que só se apresentava descamisado e duas dançarinas que disputavam a atenção dele. Aliás, uma das dançarinas só sabia roubar comida. Isso sem contar com os apelidos e nomes esdrúxulos de alguns personagens: Romerito (Alexandre Nero), Tóia (Vanessa Giácomo), Adisabeba (Susana Vieira) e Ninfa (Roberta Rodrigues) são apenas alguns exemplos.

Mansão de Tufão (Murilo Benício) em Avenida Brasil (2012). Mesmo enriquecido, o ex-jogador de futebol se recusava a sair do humilde bairro do Divino. Imagem: Reprodução. 

     Retornando para a novela Avenida Brasil (2012), há um fato que deve ser observado neste novela. Tufão (Murilo Benício) foi um ex-jogador de futebol que jogou pelo Flamengo. Graças a isso, o personagem enriqueceu o pôde construir uma grande mansão. A mesma ficava no humilde Divino, bairro da qual se recusava a sair. Já Monalisa (Heloísa Perissé) era uma mulher também de origem humilde que enriqueceu graças ao alisamento progressivo que fazia nos cabelos das clientes. Por insistência do filho, ela se muda para um bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, ela não se adapta ao mesmo e volta a residir no Divino. Estaria a novela dizendo sutilmente para o telespectador pobre que ele pode enriquecer, desde que  não saia da periferia?
     O humorístico Zorra Total (1999-2017) é especialista em mostrar os moradores pobres de modo estereotipado. O exemplo máximo disso é a Adelaide, personagem que pedia esmola no "metrô do Zorra". Ela xingava quando lhe davam pouco dinheiro e levava um tablet escondido. Além disso, ela era uma personagem negra completamente estereotipada: sem os dentes da frente, com nariz e boca exageradamente grandes. Quem a fazia era Rodrigo Santana, que pintava a sua pele para a personagem, em uma espécie de Black Face. Outro exemplo é a Lady Kate, interpretada pela humorista Katiuscia Canoro. Lady Kate era uma nova rica e que não sabia se comportar como tal. Ela se comportava de modo espalhafatoso e usava roupa de cores que chamavam a atenção. Ela tinha um amigo que estava com ela o tempo todo (que por sinal era extremamente afeminado) que tinha a missão de lhe ensinar regras de etiqueta. Antes de sair de cena, ela dizia o seguinte bordão: "grana eu tenho, só me falta-me o 'gramour'. Que que é? Tô pagaaando".

Conclusão

     Manoel Carlos é criticado pelo elitismo latente em suas novelas, mas essa é uma característica da maioria das pessoas que escrevem histórias para a televisão. Estas pessoas talvez sejam ainda piores porque ao retratarem o morador humilde, elas o retratam de forma extremamente estereotipada e jocosa. 

04/05/2017

Noiva de Cristo - a mais bela comparação que é feita à Igreja

Segundo a Bíblia, a Igreja é a noiva de Cristo. Imagem: Reprodução.

     Ao longo da Bíblia, mais precisamente no Novo Testamento, algumas comparações são feitas à Igreja (o "I" é maiúsculo porque se refere a todos os cristãos, independente da vertente que sigam). Ela é vista como o sal da terra e a luz do mundo (Mateus 5: 13-14), ovelhas do Bom Pastor [que no caso é Jesus] (João: 10-11) e até comparada a um corpo humano onde Cristo é a cabeça (Romanos 12: 4-8, Efésios 4: 15-16). Entretanto, a figura do casamento é usada com frequência na Bíblia. Ela é usada em parábolas, conselhos, comparações e advertências que aparecem em passagens e contextos diferentes. 

O povo de Deus é comparado a uma noiva ao longo da Bíblia Sagrada. Imagem: Reprodução.

     Não são somente os cristãos do Novo Concerto que são comparados a uma noiva. Os crentes da Antiga Aliança também são comparados desta maneira, dentro dos seus respectivos contextos histórico e teológico. Deus criou a humanidade e escolheu a nação de Israel como o remanescente da humanidade que deveria ser salvo. Ainda com relação aos crentes da Antiga Aliança, quem era o esposo era Deus e quem era a noiva era o povo de Israel. A linguagem figurada de Ezequiel descreve o casamento de Israel com Deus:

"Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto e cobri a tua nudez; dei-te juramento e entrei em aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha. Então, te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo. Também te vesti de roupas bordadas, e te calcei com couro da melhor qualidade, e te cingi de linho fino, e te cobri de seda. Também te adornei com enfeites e te pus braceletes nas mãos e colar à roda do teu pescoço. Coloquei-te um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas e linda coroa na cabeça. Assim, foste ornada de ouro e prata; o teu vestido era de linho fino, de seda e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, de mel e azeite; eras formosa em extremo e chegaste a ser rainha. Correu a tua fama entre as nações, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor Deus". (Ezequiel 16:8-14)

      Nos versículos acima, que foram extraídos do livro de Ezequiel, o povo Israel é mostrado como uma mulher que estava abandonada na beira da estrada, sem roupa e passando por necessidades. Um homem (provavelmente um rei), que no caso é Deus, a viu abandonada e a levou consigo. Ele a vestiu com as melhores roupas, deu banho nela, a cobriu de pedras preciosas e ela chegou a ser rainha, cuja fama se estendeu às outras nações. Israel se tornou uma nação conhecida por causa da glória de Deus que estava no meio dela. E foi isso que possibilitou a abertura do Mar Vermelho e a morte dos soldados de Faraó (Êxodo 14: 15-31), que lançou as dez pragas sobre o Egito (Êxodo 7, 8, 9, 10, 12), que mandou maná e carne diretamente do céu (Êxodo 16), que derrubou as muralhas de Jericó (Josué 6) e que fez a rainha de Sabá ficar impressionada com a nação israelita quando visitou Jerusalém durante o reinado do rei Salomão (II Crônicas 9: 1-8). Todos estes feitos fizeram de Israel uma nação conhecida, não impressionando apenas a rainha de Sabá. 
      Entretanto, mesmo sendo uma nação próspera, Israel não foi fiel em seu pacto com Deus. A maioria dos israelitas adoraram outros deuses, passaram a não viver segundo os mandamentos divinos e não mais obedeceram as ordens de Deus. Este fato é narrado nas Escrituras ao longo dos livros do Antigo Testamento e até por meio de uma linguagem figurada, onde Israel não mais é uma noiva, mas sim uma prostituta: aquela que foi infiel ao noivo, o traindo com outros homens, ou melhor - deuses. Esta mesma linguagem figurada aparece no livro do profeta Oséias (1.2), onde Deus manda o profeta se casar com uma prostituta a fim de mostrar ao Seu mensageiro a infidelidade de Israel. Com este ato, Oséias sentiria o que Deus sentia quando Israel passou a se afastar Dele. Israel rejeitou o plano divino de salvação da humanidade oferecido por Deus. Com isso, os gentios (aqueles que não são judeus) foram incluídos neste plano. Desta forma, o plano divino de salvação para a humanidade se estende para todos os povos e nações. É neste momento que Jesus entra em cena.

Ilustração mostrando como será as Bodas do Cordeiro. Será um evento grandioso e nenhuma mente humana consegue imaginar a grandiosidade deste evento. Imagem: Reprodução. 

      Os judeus rejeitaram o plano divino da salvação (é importante frisar que judeu e israelita não são a mesma coisa) e, com isso, pessoas de outros povos e nações são incluídos neste plano. Jesus vem ao mundo para salvar a humanidade, morrendo por ela. Ele levou sobre Si as enfermidades e os pecados da humanidade (Isaías 53: 4-5). Depois de Sua morte, o sacrifício onde um cordeiro era morto para a expiação de pecados se tornou desnecessário. É por isso que Jesus é chamado de cordeiro em muitas passagens da Bíblia e é por isso também que o casamento de Jesus com a Igreja, como será mostrado mais a frente, é chamado de as Bodas do Cordeiro. No Novo Testamento (ou Nova Aliança, categoria que também é aplicada aos cristãos da atualidade), a linguagem figurada de um casamento entre um homem e a mulher aparecem, mas as pessoas são outras. O noivo agora não é Deus, mas sim Seu filho Jesus e a noiva não mais é Israel, mas sim a Igreja. As alusões a uma noiva ou ao casamento são comuns no Novo Testamento. Ela aparece por meio de parábola (Mateus 25: 1-13), por meio de resposta (Mateus 9: 14-15) ou por meio de conselhos domésticos (Efésios 5: 25) por exemplo.
      Jesus morreu crucificado, ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus e disse que voltaria para levar Sua noiva para o céu. Ninguém fica noivo para sempre. Uma hora o casamento tem que acontecer. Jesus subiu as céus, mas disse que voltaria para buscar a sua Igreja. Ele não disse quando voltaria, até porque nem Ele sabe o dia exato, somente Deus (Mateus 24: 36). Entretanto, Ele recomendou aos crentes a permanecerem firmes e vigilantes, dizendo quais sinais antecederiam a Sua volta. Apostasia, propagação de falsas doutrinas, proliferação de falsos cristãos, perseguição aos cristãos, maior propagação do Evangelho, desmoralização generalizada da sociedade, sinais desconhecidos nos céus, guerras, rumores de guerra,  fomes, pestes e terremotos são alguns dos sinais da volta de Cristo. Após todos estes sinais, Jesus virá em dia e hora não revelados e de surpresa, uma volta "à francesa". Os cristãos arrebatados terão seus corpos revestidos de incorruptibilidade e imortalidade (I Coríntios 15: 53-55) e encontrarão Jesus nas nuvens (I Tessalonicenses 4: 16-17). Após isso, haverá o Tribunal de Cristo e os cristãos receberão galardões de acordo com suas obras. Destaque para um fato: o Tribunal de Cristo não é um tribunal para condenar ninguém. É um tribunal para recompensar as pessoas de acordo com suas obras. Aqueles que vão para este tribunal já irão com a causa ganha, eles só irão receber a recompensa. Até porque só vai ser arrebatado quem for cristão. Quem não for não vai nem passar por isso. Após todos estes acontecimentos ocorrerá enfim as Bodas do Cordeiro, o casamento entre Jesus (o noivo) e a Igreja (a noiva). Como já dito, Jesus é chamado algumas vezes de cordeiro porque durante a Páscoa Ele morreu pela humanidade, levando sobre Si as maldições e enfermidades da mesma. Após isso, o sacrifício de um cordeiro para a expiação de pecados se tornou desnecessário porque Jesus fez isso por definitivo, se oferecendo voluntariamente como um cordeiro.

O casamento da Princesa Diana (1961 - 1997) com o Príncipe Charles é considerado o casamento do século. As Bodas do Cordeiro será um evento muito  mais impactante que este e sem igual na história da humanidade. Imagem: Reprodução. 

      As Bodas do Cordeiro será o maior evento matrimonial do universo e os ditos "casamentos do século" serão "fichinhas" perto deste. A Princesa Diana (1961-1997) e o Príncipe Charles se casaram em 1982. A união dos jovens príncipes foi o primeiro casamento real a ser transmitido em tempo real na televisão. Cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo assistiram a cerimônia pela TV. Monarcas de todo o mundo foram convidados para a cerimônia e milhares de pessoas foram às ruas de Londres para acompanhar o casamento. O vestido de noiva da princesa foi um espetáculo à parte. Composto de mangas bufantes, saia rodada e uma calda que media cerca de sete metros de comprimento, o modelo foi copiado por noivas de todo o mundo. Na cabeça, a falecida princesa usou uma tiara coberta de pedras preciosas e um véu que tinha mais ou menos o mesmo tamanho da cauda do vestido. Já os sapatos que a princesa usou em seu grande dia eram enfeitados por pérolas. Mesmo tendo passado pouco mais de três décadas, este casamento ainda é lembrado por muitos. As Bodas do Cordeiro será superior a este casamento, tamanha a sua magnitude. Jesus já tinha previsto este acontecimento: "E eu vos destino o Reino, como meu Pai mo destinou, para que comais e bebais à minha mesa no meu reino" (Lucas 22: 29-30). Já em Apocalipse, João registrou o seguinte: "Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro." (Apocalipse 19:7-9). João também registrou o seguinte: "Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles." (Apocalipse 21:2-3).
      Participarão das Bodas do Cordeiro os cristãos arrebatados, aqueles que ressuscitaram momentos antes do arrebatamento, cristãos de todo o mundo, de épocas, idades e culturas diferentes. Os crentes da Antiga Aliança também participarão deste evento solene, onde Jesus apresentará Sua noiva (agora esposa) a Deus em uma solenidade jamais imaginada por qualquer pessoa na história do universo. Será um evento onde o próprio Jesus servirá Sua amada (Lucas 12: 37). As Bodas do Cordeiro será uma festa onde também estarão presente anjos, arcanjos, querubins, serafins, os quatros seres viventes (leão, boi, águia e homem. Eles são citados pelo profeta Ezequiel) e os vinte e quatro anciãos (que são citados em Apocalipse). 
      Não será arrebatado e consequentemente não participará das Bodas do Cordeiro aqueles cristãos que não estiverem vivendo de acordo com os padrões bíblicos. Para participar das Bodas do Cordeiro, a Igreja (noiva) tem que se encontrar “gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Efésios 5:27), ou seja: sem pecado. 

Conclusão

      A metáfora do casamento, onde a Igreja é colocada como noiva de Cristo, é a mais bela metáfora de toda a Bíblia. Esta figura de linguagem se torna ainda mais bela quando se percebe que não é meramente uma história de amor. Minto. É uma história de amor, sim. Uma história de amor onde Deus, manifestando a mais profunda prova do mesmo, criou a humanidade (sabendo de tudo o que ela iria fazer) e, em uma prova de amor ainda mais profunda, entregou Seu único filho para morrer por ela. A diferença entre este fato e um outro romance qualquer é um amor profundo e sem igual, onde a redenção da humanidade é a questão central. 

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