27/04/2017

O lado político-social do seriado Chaves

O seriado Chaves (1971-1980) vai muito além das risadas. Imagem: Reprodução.

     O seriado Chaves (1971-1980) dispensa apresentações. O mesmo marcou e atravessa gerações em todo o globo terrestre e ainda é capaz de arrancar risadas como se estivesse sendo assistido pela primeira vez, quando na verdade já foi reprisado milhões de vezes. Outra prova da popularidade do seriado foi quando Roberto Gomes Bolaños, que interpretava o Chaves, o personagem principal, faleceu, no ano de 2014. A internet entrou em colapso. No Brasil e no mundo (em especial nos países da América Latina) o assunto foi o mais comentado nas redes sociais. Entretanto, o seriado não se limita a risadas: há uma mensagem que vai muito além das mesmas. 

Réplica da "Vila do Chaves" construída no Memorial da América Latina, em São Paulo. É nesta vista que a maioria das histórias do seriado Chaves se desenrolam. Imagem: Reprodução. 
   
     A vila onde Chaves e os personagens principais da história moram (ao contrário do que muita gente pensa, o Chaves não mora no barril. Ele apenas se esconde nele. O Chaves mora mesmo é na casa número 8. É por essa razão que no original o seriado se chama El Chavo del Ocho, ou seja: O Menino do Oito. Na tradução para o português do Brasil chavo virou Chaves porque a primeira palavra significa menino em espanhol e em terras brasileiras não se costuma apelidar as pessoas simplesmente de menino. Assim, decidiram traduzir o seriado para Chaves) é de propriedade do Sr. Barriga (Édgar Vivar), um homem rico que é pai do Nhonho (personagem também interpretado por Vivar) e que mensalmente vai à vila cobrar o aluguel dos inquilinos. Sr. Barriga cobra o aluguel de todos, menos do Chaves, que é um menino de rua e órfão. Na vila, moram Dona Florinda (Florinda Meza) e seu filho Quico (Carlos Villágran). D. Florinda é uma viúva dona de casa cujo então marido e pai de seu filho era um marinheiro que morreu em alto mar. Ela se acha superior aos seus vizinhos (por isso os chama de "gentalha" com frequência), quando na verdade a sua situação não é muito diferente da deles. O filho Quico, assim como a mãe, se acha superior a todos da vila e é mimado e arrogante. Ele tem tudo o que quer e adora ostentar seus brinquedos para as crianças, sempre ressaltando que os dele são os melhores. Dona Clotilde, a Bruxa do 71 (Angelines Fernández) é uma mulher que vive de forma modesta e paga em dia o aluguel. Já o Seu Madruga (Ramón Váldez) é um homem que vive desempregado e que nunca consegue pagar o aluguel. O pai de Chiquinha (María Antonieta de las Nieves) deve 14 meses de aluguel e em um episódio o Sr. Barriga decide pedir a casa que Seu Madruga mora, mas como ele e a filha não tinham para onde ir, o Sr. Barriga se compadece e deixa ele ficar na casa. A fim de conseguir uma renda, o personagem em questão já trabalhou como lutador de boxe, sapateiro, leiteiro, carpinteiro e pintor por exemplo. Entretanto, quem vive em pior situação é Chaves, o protagonista da história. Ele é orfão, não tem o que vestir e nem o que comer (ele vive sonhando com um sanduíche de presunto e sempre que pode "belisca" a comida alheia). Chaves é também um menino puro, inocente e sonhador.
     A vila do Chaves (vamos chamar assim a vila onde acontecem a maioria dos episódios do seriado) foi sem dúvida inspirada em regiões pobres do México, país de origem de Roberto Gomes Bolaños (1929-2014) e da maioria dos atores que atuaram no seriado. Entretanto, a vila retrata a realidade de regiões pobres mundo a fora. Ao contrário do que muita gente pensa, favela (ou comunidade, como alguns chamam) não é algo homogêneo, onde todos os moradores possuem a  mesma condição de vida e o mesmo poder aquisitivo. Pelo contrário. Há aqueles que vivem em situações miseráveis, aqueles que são minimamente remediados e aqueles que possuem uma condição de vida melhor, ou o "pobre melhorzinho", expressão que ouvi sair da boca de uma colega da universidade. Na vila do Chaves é isso o que é retratado. Como já falado no parágrafo acima, a Dona Florinda é uma viúva que vive da pensão do falecido marido, que era marinheiro. Comparada aos demais moradores, é ela quem tem a melhor condição de vida. A mãe do Quico é ciente disso e se acha superior aos demais moradores, mimando o filho com doces e os melhores brinquedos. Já a Dona Clotilde nunca foi de se exibir financeiramente. Por sua vez, o Seu Madruga vivia sem dinheiro e nunca pagava o aluguel. Por fim, tinha o Chaves, que vivia em uma situação extremamente miserável: era órfão, não tinha o que vestir e nem o que comer. A favela (ou no caso, a vila) não é homogênea.

Se repararem bem, nenhum dos moradores da vila tem uma "família completa". Imagem: Reprodução. 

     Os moradores da Vila do Chaves sem exceção não possuem "família completa". Dona Florinda é uma mulher viúva e consequentemente seu filho Quico é órfão de pai. Dona Clotilde é uma mulher solteirona, ou seja: não se casou e nem teve filhos. Há um episódio do seriado em questão em que Dona Clotilde traz para a vila a filha de uma sobrinha escondido, pois a mãe do Quico havia proibido na vila crianças e animais. Entretanto, a bebê aparece somente neste episódio e a sobrinha de Dona Clotilde nunca apareceu. Seu Madruga é viúvo e consequentemente a sua filha Chiquinha é órfã de mãe. Há alguns episódios em que a bisavó de Chiquinha aparece. De início, eram aparições esporádicas, mas depois se torna um personagem fixo do programa. O único que talvez tenha uma "família completa" é o Sr. Barriga, pai de Nhonho. A esposa do Sr. Barriga é citada em alguns episódios, mas nunca apareceu em nenhum.
     Entretanto, mesmo com os moradores tendo um perfil de família acima descrito, eles acabam se completando. Os moradores da vila vivem brigando, mas ao mesmo tempo são muitos unidos. O Chaves, protagonista da história, é acolhido por todos. Ele participa das festas da vizinhança, das festas de aniversário e, para não que ele não ficasse sozinho, o Sr. Barriga o leva para Acapulco. Mesmo perdendo a paciência com o menino frequentemente, o Seu Madruga é o que mais se  sensibiliza com a situação em que Chaves vive. Além disso, as turras que ocorrem na vila do Chaves são desentendimentos que ocorrem em uma vizinhança qualquer. Eles discutem por falta de espaço no varal, discutem por quererem usar o tanque para lavar roupas ao mesmo tempo, discutem porque um está no meio do caminho e tem alguns desentendimentos até por brigas que envolvem as crianças.

Gustavo Díaz Ordaz Bolaños(1911-1979) foi presidente do México entre os anos de 1964 a 1970. Ele era tio de Roberto Bolaños. Imagem: Reprodução. 

     É problemático, mesmo com as análises acima feitas, dizer que o seriado Chaves contém "mensagens revolucionárias" ou algo do tipo. Não estou dizendo também que o autor do mesmo é neutro, tudo é ideologia. O seriado Chaves faz sim uma crítica social, mas mesmo que a definição de esquerda e direita seja única, na prática ela se diferencia em alguns países e isso é causado em parte pelo poder aquisitivo das pessoas, bem como pelo grau de instrução das mesmas. Roberto Bolaños nunca falou abertamente acerca de suas convicções políticas, mas em 2006 apoiou a campanha eleitoral do Partido da Ação Nacional (Partido Acción Nacional original, cuja sigla é PAN), uma sigla política de direita. Roberto criticou o candidato esquerdista Andrés López Obrador e a esquerda em geral, dizendo que o político estava dividindo os mexicanos. No ano seguinte, Roberto Bolaños se uniu a protestos de católicos e conservadores que procuravam manter o aborto como um crime, frente a postura da Assembleia Legislativa, cujos representantes se inclinaram por descriminalizá-lo durante as doze primeiras semanas de gravidez. Além disso, o criador do seriado Chaves declarou em sua conta no Twitter que era contra as manifestações de rua porque elas diminuem o tempo e a capacidade para o trabalho e afirmou que votaria em um candidato que impeça tais manifestações.
       Talvez muita gente ainda não saiba, mas Roberto Gomes Bolaños era sobrinho do já falecido Gustavo Díaz Ordaz Bolaños,ex-presidente do México. No período em que esteve no poder (de 1964 a 1970), Gustavo Díaz se mostrou autoritário, reprimindo uma greve dos médicos e manifestações estudantis em 1968 num episódio que ficou conhecido como Massacre de Tlatelolco, onde o exército mexicano matou centenas de estudantes apenas dez dias antes da abertura das Olimpíadas de 1968. Por outro lado, durante o governo de Díaz Ordaz, a economia mexicana se manteve estável e próspera. Também foram colocados em prática programas de irrigação no campo e de industrialização rural. O então presidente promulgou um novo Código de Leis Trabalhistas e foi durante o seu governo que o metrô da Cidade do México foi inaugurado. Uma curiosidade: Alfredo Díaz Ordaz Borja, filho mais novo de Gustavo Díaz Ordaz, já foi namorado da atriz e cantora mexicana Thalia. O casal estava namorando quando Alfredo faleceu de Hepatite C, em 1992.

Conclusão

      O seriado Chaves foi inspirado em lugares pobres do México, mas pessoas de todo o mundo se identificam com o mesmo. Qual é a vizinhança onde não há desentendimentos? Qual é a vizinhança onde um morador não se ache superior aos demais? O seriado em questão faz sim uma crítica social, onde temas delicados como orfandade, desemprego e fome são abordados de maneira suave e bem humorada. Particularmente, eu prefiro não classificar o seriado em questão como de esquerda ou de direita porque na prática esta classificação tem as suas variações de região para região. Entretanto, não se pode negar que o mesmo faz uma crítica social. 

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